Operário na final traz à memória uma polêmica de 1926

Buscando conquista inédita, clube ainda poderia recuperar título 'roubado' há cem anos?


Por Cícero Goytacaz
Torcida do Operário em arquibancada de estádio de futebol

Foto: Fernando Tonet

Torcida do Operário em arquibancada de estádio de futebol
Foto: Fernando Tonet

O Operário Ferroviário, atual campeão paranaense, está novamente na final. A vaga veio após eliminar o Coritiba nos pênaltis, em duas partidas eletrizantes. Dois empates por 2 a 2, com reviravoltas que confirmam por que o derby “Vovô” – o confronto mais antigo do futebol paranaense – é, de fato, um clássico.

A classificação para a final de 2026, porém, tem um gosto especial: é a primeira vez que o Fantasma – que completa 114 anos em 1º de maio – disputa uma decisão para defender o título.
Nas outras 16 vezes em que chegou à final, o Operário acumulou vices em três períodos de finais consecutivas:

Mas o campeonato de 1926 poderia ter mudado essa história, se o regulamento tivesse sido cumprido e o tapetão não tivesse beneficiado o clube da capital.

14 vices e um título “roubado”

Curiosidades e controvérsias marcam essas finais. Uma delas: com exceção de 1925, todas as decisões da época aconteceram no ano seguinte – a de 1926, por exemplo, foi em janeiro de 1927.
Em 1936, depois de perder por 1 a 0 para o Atlético em Curitiba, o Operário simplesmente desistiu do jogo de volta em Ponta Grossa. Não se sabe por quê. Mas, com isso, perdeu a chance de decidir um título em casa – o que só aconteceria em 2025.

O Alvinegro também levou duas surras do Ferroviário, seu coirmão da capital: em 1937 (3 a 2 e 5 a 2) e em 1938 (3 a 1 e um acachapante 9 a 2 em Curitiba).

A mais controvertida de todas, porém, foi a final de 1926 contra o Palestra Itália.

Um título controverso

Em 31 de janeiro de 1927, em Curitiba, o primeiro jogo terminou 2 a 2. O regulamento dizia:

Com o empate, o segundo jogo deveria ser nos domínios do Operário. Mas o Palestra, alegando “compromissos” jamais explicados, nunca se preocupou em agendar a partida. A Associação Sportiva Paranaense – entidade que precedeu a Federação Paranaense de Futebol –, numa decisão arbitrária e à revelia do Operário, declarou o Palestra campeão.

Esse episódio é um dos mais amargos e controversos da história do Fantasma.

As regras

Pelo regulamento, a falta da segunda partida deveria ser considerada vitória do Operário por W.O. – conclusão inevitável: o time da Vila Oficinas, legal, histórica e moralmente, deveria ser reconhecido como único campeão de 1926.

Claro, há a questão prática: dá para contestar hoje, um século depois, com o Palestra Itália extinto em 1971? Ainda assim, o episódio merece averiguação – seja pelo jurídico do clube, pela Trem Fantasma ou por qualquer torcedor.

Os documentos da época provam o descumprimento do regulamento e a decisão arbitrária dos cartolas. Uma ação no TJD-PR ou no STJD é perfeitamente plausível. Neste caso, o Operário ganharia o reconhecimento oficial do título de 1926, somando uma terceira estrela às conquistas de 2015 e 2025 – reparação para uma das maiores injustiças da história do futebol paranaense.

O passado e o futuro do Fantasma

Controvérsias à parte, desde 2015 o Operário deixou de ser “primo pobre” dos clubes da capital. Durante décadas foi visto como time pequeno, sem competitividade nem organização.
Mas o Fantasma se transformou: criou estrutura, conquistou dois Paranaenses, dois Brasileiros (Série D e C), está na Série B desde 2019 (com um breve retorno à C em 2023) e chega à terceira final estadual em dez anos.

Hoje, ninguém duvida: o Fantasma voltou a assustar seus adversários, de forma categórica.

Fantasma x Tubarão: uma final histórica

Um dia depois de carimbar a vaga na segunda final consecutiva – quebrando um tabu de quase 90 anos e indo defender o título de 2025 –, o Fantasma conheceu o adversário: o Londrina.

No dia seguinte à classificação do Operário, o Tubarão eliminou o Athletico na Baixada com um gol aos cinco minutos; depois, se segurou como pôde, e o Furacão ainda perdeu um pênalti.

Mais uma vez, uma final inédita. Mais uma vez, uma partida que já nasce histórica: pela primeira vez, Operário e Londrina, os dois maiores rivais do interior do estado, decidirão, nos próximos dois sábados, quem é o campeão do Paraná.

De um lado, o time mais antigo do interior, que ajudou a fundar o futebol no estado, com sua torcida apaixonada e a força de quem aprendeu a vencer depois de décadas. Do outro, a expressão moderna do futebol interiorano, reestruturado, com cinco títulos estaduais e invicto na competição.
O Tubarão venceu o Fantasma na primeira fase por 2 a 0. Os dois devem se enfrentar também na Série B em 2026. Portanto, esta final é só mais um capítulo da rivalidade que promete pegar fogo neste ano.

Mais que um título, está em jogo o orgulho de duas torcidas e o direito de ostentar, sem discussão, quem é o maior do interior.Esse título tem o valor simbólico de muitas conquistas. Para o Fantasma, vencê-lo significa provar, de uma vez por todas, que o passado de glórias não é privilégio de apenas alguns – e que a história, quando escrita com pés no chão e peito aberto, pode finalmente encontrar seu lugar de reparação e consagração.


*Nascido em Ponta Grossa, André Rosa é radicado em São Paulo, cursou Letras e é mestre em Educação pela UEPG. Operariano desde a infância, é professor de português para executivos estrangeiros, tradutor e pesquisador.

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