27 de julho de 2026

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Morre em PG Marinho Gallera, principal parceiro musical de Leminski


Por André Rosa Publicado 10/03/2026 às 11h59
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Marinho Gallera com Leminski
Paulo Leminski, Alice Ruiz e Mário Gallera em 1985. Foto: acervo André Rosa.

Morreu no dia 9 de março o grande músico Marinho Gallera. Artista de uma geração que marcou a música, a cultura, a literatura e a publicidade no Paraná, seus últimos anos foram passados em uma semirreclusão, quase integralmente vivida em Ponta Grossa, cidade onde residiam seus filhos e onde mantinha relações que vinham desde a década de 1970.

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Áurea leminski e Athon na janela, Leminski, Vítola, Paulo Botas, Marinho e Selma Castro. Foto: acervo André Rosa.

Marinho foi um músico diferenciado por várias razões. Essencialmente, pela qualidade de sua obra – a sutileza melódica de suas composições, a simplicidade profundamente poética de suas letras, a beleza dos arranjos e o vigor das parcerias estabelecidas com dois Paulos: Vítola, grande compositor, cantor e publicitário curitibano, e Leminski, o poeta, escritor, tradutor e compositor paranaense de maior destaque nacional. Marinho foi nada menos que o principal parceiro musical de ambos.

Parcerias com ‘Paulos’

Com Vítola, encabeçou vários trabalhos desde os anos 1970, dos quais se destacam o álbum “Curitiba. Cidade da gente”, lançado em 1982; a participação central no Movimento de Atuação Paiol — o MAPA, que em meados da década de 1970 reuniu a fina-flor da agitação cultural da capital para promover artistas paranaenses em âmbito nacional; e o álbum “Fazia poesia”, de 2004, que reúne as composições criadas por Marinho e Leminski em parceria. Junto com o frei dominicano Paulo César Botas, Marinho gravou o álbum “A paixão segundo Cristino” (1984), única gravação desta obra de Geraldo Vandré, executada no mosteiro de São Bento, em São Paulo, nos anos 1970, com Vandré e o Trio Maranhão, como resistência à ditadura militar.

O músico era natural de Araraquara, São Paulo, e aportou em Curitiba em 1968. Naquele “ano que não terminou”, chegou com o objetivo de estudar Ciências Sociais na UFPR. Mas logo falaram mais alto a vida boêmia e as ações culturais que tentavam “sacudir o coreto” e agitar a cidade — no momento em que a capital vivia seu primeiro surto de desenvolvimento urbano moderno, a partir das transformações iniciadas pelo prefeito Jaime Lerner, e que levariam a cidade a assumir lugar de destaque entre as grandes metrópoles brasileiras.

A partir do MAPA, que tinha seu epicentro e templo cultural no Teatro Paiol, a cidade recebeu a visita e a influência de grandes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Radamés Gnatalli, Lindolfo Gaya, Vinícius e Toquinho — estes dois fizeram o show de inauguração do Paiol, antigo depósito de munições, ao qual foi dedicada a famosa canção “Paiol de pólvora”, tema da novela “O Bem Amado”. Nos anos 1970, havia também a agitação no teatro musical curitibano, onde Marinho e Vítola, junto com Paulo Botas, atuavam, compunham trilhas e se apresentavam pelos bairros da cidade.

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Paulo Vítola e Marinho, bebendo uma Original no Passeio Público, em 1981. Foto: acervo André Rosa.

Período de efervescência cultural

A obra de Mário Gallera e Paulo Vítola era a síntese daquele período. A amizade entre Gallera, Vítola e Leminski era uma usina criativa que se expandiu para além da canção, chegando à publicidade, à literatura, à poesia, perfeita síntese do “espírito do tempo” que gerou a imagem da Curitiba “moderna”, “urbana” e “ecológica” e que mais ou menos persiste até nossos dias. É de Marinho o famoso jingle da campanha “Lixo que não é lixo”, pioneiro programa de coleta seletiva no país, na década de 1980.

Marinho fez samba, MPB e rock, mas gostava mesmo era de choro e de trilhas de cinema e de teatro. “Se eu pudesse, faria um disco só de choro”, declarou certa vez. Também era fã de obras líricas, influência que vinha da mãe, que gostava de cantar óperas. “Morei em cima de um cinema. Nas quintas-feiras, passavam três filmes. Eu entrava no cinema às sete da manhã e só saía de lá quando o último acabava. Vi todos aqueles musicais do cinema brasileiro. Também gostava muito de bandas. Gostava muito da Banda Lyra dos Campos, acho legal cidade ter banda. A primeira vez que ouvi uma música minha assim, arrumada, uma marchinha, foi tocada pela banda do 13º Batalhão da Polícia, em Araraquara. Foi muito legal”, contou Marinho em entrevista ao jornal O Grimpa, em 2004.

“Curitiba. Cidade da Gente”

O álbum “Curitiba. Cidade da Gente”, em parceria com Paulo Vítola, teve a participação de Paulo Leminski – escrevendo o genial texto do encarte, “ABCuritiba” –, arranjos do maestro Lindolfo Gaya, e participações da cantora Selma Castro, de Paulo César Botas, da dupla Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, além de outros músicos renomados de Curitiba. É um disco que, infelizmente, nunca foi difundido como deveria – talvez por se tratar de um disco criado a partir da temática tolstoiana de “cantar a própria aldeia”, tenha ficado marginalizado na MPB, raramente mencionado ou reconhecido entre os grandes da música popular brasileira.

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Curitiba. Cidade da Gente. Foto: acervo André Rosa.

Porém, é exatamente por falar de Curitiba e suas raízes de maneira profundamente lírica e poética que este disco transcende o “regionalismo paroquiano”. É um disco cult, com lindas canções, interpretações e arranjos. Faixas como “Polaca pixaim”, “Chucrute, abacaxi e vinavuste”, “Ford Bigode” e “Choro de rua” figuram entre os clássicos da canção paranaense, e só não se tornaram nacionalmente conhecidas pela injustiça do mercado, sempre mais preocupado em pasteurizar e padronizar a cultura do que dar valor ao que é autêntico. Mas o álbum está aí: é e sempre será referência a todos os músicos que se interessem por algo além do habitual, e prova, sem dúvida, de que há identidade no Paraná.

“Fazia poesia” foi o último trabalho solo de Mário. Lançado em 2004, contém as canções criadas em parceria com Paulo Leminski, em sua maioria inéditas. Produzido pelo próprio Marinho e por Álvaro Ramos, conta com as participações de Alice Ruiz, Áurea e Estrela Leminski, Paulo César Botas, Athon Gallera, Paulo Vítola, Sérgio Albach e Mário Conde. Leminski sempre se interessou pela música popular – escreveu canções que ficaram famosas com Caetano Veloso, Moraes Moreira, Itamar Assumpção, Guilherme Arantes e Arnaldo Antunes. Um de seus projetos era gravar um disco. Sua morte precoce não o permitiu. Mas “Fazia poesia”, com a colaboração de Marinho e a gestão das filhas de Leminski, mostrou que a força criativa do poeta não se restringia à literatura. As palavras e as melodias mostram a grandeza dessa parceria – como já mencionado, Marinho foi o parceiro musical com quem Leminski mais compôs.

Conexão com Ponta Grossa

Mário passou os últimos tempos em Ponta Grossa, onde eventualmente dava as caras em “canjas” com músicos locais, mas, lamentavelmente, não teve o reconhecimento que um artista de seu calibre merecia. Em parte, isso se deve ao seu gênio retraído e quase tímido – perfeito paradoxo: um músico de seu quilate que não gostava dos holofotes –, o que impediu que tivesse mais visibilidade nos meios culturais de PG. Mas também fala muito sobre uma certa indigência cultural da cidade, que prefere sempre o mais fácil, o padronizado, o “mais do mesmo”, o “de sempre”, e nem sequer se preocupa em investigar a riqueza escondida e muitas vezes esquecida, ou pior, desprezada, que habita os lugares não óbvios. Uma pena que as coisas continuem assim na Princesinha dos Campos.

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Foto mais recente de Gallera. Crédito: acervo de André Rosa.

Os problemas de saúde, aliados à idade avançada, acabaram por levar o grande compositor. Teve uma última alegria, quando o músico Fabrício Cunha o visitou, no hospital, na tarde de seu falecimento, e tocou para ele o samba “Caixa furada”, de Leminski, uma das faixas de “Fazia poesia”, que ele ouviu sorrindo. Marinho Gallera deixa como legado uma obra essencial para se entender o que é a música no Paraná. É um daqueles que “vai sem ir”. Ele é “o cheiro de uma flor que eu não me lembro mais”.

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