Vernum


Por diagramacao

Quando for tempo
E vieres
Chega de manso
Sem ferir a tarde

Thereza Cristina Pusch

SÉRGIO MONTEIRO ZAN

Quando quiseres vir nem te vistas de festa
hoje o passado cai por abismos distantes
e os tempos são reais

Há lágrimas de fogo em teus passos antigos
veneno em teu desenho estampado em memórias
e miragens perplexas

Muitos sonhos seguiram
mais fortes do que tu
mais tênues do que tu e portanto mais fortes
e bebi em largos tragos a verdade em quimeras
e bêbado de espanto deliro um sorriso recente
sobre mágoas desfeitas
e abrem-se horizontes num espasmo-ânsia insistente
fascinador
Faz-se na dor um mágico sinal de primavera

Se vieres vem de leve e a tarde não te sinta
nem queime o teu olhar as tintas delicadas
Há círios pelo ar
a noite anda por perto
e estrelas pressentidas
são carícias serenas
e são beijos profusos

Talvez nem mesmo venhas
e ínscios os caminhos se enflorem
na calma da tua ausência
……………………………….
Não virás
nem hei de ver a tarde luminosa
ferida apunhalada pelo teu regresso
nem hei de ver a noite ampla de aromas e de espaços
sequer movida do presságio hostil do teu perfume
tocada nem de manso
pela indistinta nódoa azul da tua lembrança

Miniatura, óleo sobre madeira, autor: Carlos M. Fontes Neto (1999).

FUNDADORES DA ACADEMIA DE LETRAS DOS CAMPOS GERAIS

Sérgio Monteiro Zan

CARLOS MENDES FONTES NETO*

Graduado pela Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Ponta Grossa. Mestre em Literatura Portuguesa pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e Doutor em Letras pela Universidade Estadual Paulista. É um estudioso, com cursos de especialização no Bra-sil e no exterior. Estágios realizados na França que renderam a participação em grupos de estudos sobre civilizações antigas e inúmeras viagens para importantes sítios arqueológicos, universidades e museus da Europa e da África.

Foi professor titular do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Ponta Grossa, se tornando uma referência na pesquisa de Literatura Clássica e um mestre que dei-xou marcas em gerações de estudantes que passaram pelas disciplinas que ministrou. Domi-na a língua inglesa, a francesa e a espanhola, além do latim (que lhe permite ser um connais-ser do gênero de representação dramática acompanhada de música intitulado ópera). Ainda mais, têm várias publicações na Revista Uniletras, da Universidade Estadual de Ponta Gros-sa, além das edições dos livros: As Horas Sonâmbulas (UEPG, 2001) e Temas Rurais do Brasil (UEPG, 1998 em coautoria).Um currículo invejável de alguém que dedicou a vida ao conhecimento e à cultura, de modo que ocupar a cadeira 20 da Academia de Letras dos Campos Gerais como funda-dor é uma honra para todos nós, seus 39 confrades. Imprime toda a intelectualidade e rele-vância cultural que a entidade precisa e merece. E quando lembramos a ordenação maior da nossa Academia, que é “a finalidade do cultivo, da preservação e da divulgação do verná-culo e da literatura, nos seus aspectos científico, histórico, literário e artístico”, ninguém encarna esse propósito com mais propriedade.
Ao completarmos 25 anos da fundação da Academia de Letras dos Campos Gerais é significativo que na gestão da chapa ¨Jubileu de Prata¨ que será empossada para o biê-nio 2025/2027 venha a ocupar a vice-presidência e dessa forma destacar a importância de todos os fundadores que tiveram a oportunidade de viver a celebração desse Jubileu. Ain-da mais que, por duas gestões, nos períodos 2007/2009 e 2009/2011, presidiu a Academia, tempo em que a instituição sedimentou seu nome na história dos Campos Gerais.
Como não se esperar contribuições valiosas de quem pertence a uma família de in-telectuais e importantes professores da nossa cidade. E que privou desde jovem da con-vivência de grandes nomes da nossa cultura e escrita, tal como Bruno Enei, que visitava ainda muito jovem para esfrutar da formidável cultura do anfitrião, além de garimpar a bi-blioteca instalada em uma sala que originalmente era a garagem da casa. E por ter sido aluno de algumas figuras lendárias da história de Ponta Grossa, como Faris Michaele, Ma-ria Enei, Elzira Corrêa de Sá e outros, quando provocado nos conta reminiscências e curi-osidades que humanizam esses mitos. Sua erudição se revela nas falas de orador, quando se identifica a pertinência das palavras e ideias por meio da sua capacidade de prender a atenção dos ouvintes.
Impossível não perceber sua cuidadosa preocupação em determinar a natureza da escrita quando com sua contumaz capacidade e conhecimento discorre sobre os temas abordados. Tudo recheado com certa dose de humor fino. E é com muita sensibilidade e competência que reuniu as trovas escritas por sua mãe, Lygia Monteiro Zan, em uma pu-blicação póstuma, quando na sua explicação do que é o gênero literário acaba por definir a obra: “A quadra portuguesa, a trova brasileira, eis aí pura lágrima de quem quer que se proponha afrontar, irresistente à sua candidez ibérica multissecular, a esfera aliciante das redondilhas. Pois a trova há de ser definitivamente simples e inequívoca. E é nessa palpi-tação atávica da nossa raça, que irá repousar todo seu encanto”. Como não se encantar com, além do conhecimento expresso, a beleza da escrita e da composição literária que demonstra a grandeza da sua cultura.

*Carlos M. Fontes Neto é engenheiro civil e primeiro ocupante da cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais

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