
Escrever crônicas – esse é o ofício do cronista; uma crônica é sempre um relato descritivo, de alguma coisa que já foi, está sendo ou se projeta para acontecer. O cronista, para ser verdadeiro, autêntico, deve conhecer muito bem sobre o que escreve, como um ator de teatro que já encenou a peça, ou pelo menos ouviu alguém descrevê-la.
Durante algum tempo escrevi crônicas para um jornal local; não sei se isso me autoriza a dizer “sou uma cronista”. Escrevi, e escrevo, pequenos relatos sobre a história, os costumes, o modo de viver de nosso povo ponta-grossense, pois sinto-me à vontade dentro do que sempre foi minha profissão = professora de História e historiadora. Como estou falando para artistas, resolvi brincar um pouco com as ideias e fazer essa comparação = o que o cronista tem de igual e de diferente do artista.
Ser um cronista não depende de aprender vendo o mestre fazer – para chegar lá, precisa gostar de ler e escrever, pois em vez de usar pinceis ou materiais para criar sua obra prima, você trabalha com as palavras. São elas que dão cor ao seu trabalho, criam sua tela, dão forma à sua cerâmica, moldam sua escultura. Você pinta, esculpe, molda, formando frases, buscando ideias, procurando passar para os outros a sua forma de ver o mundo, com técnica e personalidade, atraindo para a sua obra o olhar distraído de quem ainda não lhe enxergou.
Na crônica, como na arte, vale sempre mais aquele que cria, que usa com personalidade e sem medo, o objeto de seu ofício. Quem copia fica sempre com aquela sensação de querer, um dia, soltar suas asas e alçar voo sozinho, como o artista que tem talento mas não domina a técnica. Não importa sobre o que eu trabalhe, o cronista com suas ideias, o artista com a materialização de sua inspiração, pois a crônica como a arte é bem no fundo uma releitura do mundo, e são as duas tão mais belas se conseguirem trazer alguma coisa nova, fazer pensar, enxergar a beleza e a luz, a habilidade que se encontra em cada artista e cada cronista.
A crônica, como a arte, nem sempre agradam ou encantam da mesma forma todos aqueles que a contemplam ou leem, pois artista é Frida Kahlo, Claude Monet ou Salvador Dalí, e cada um deles partiu para individualizar a sua mensagem. Crônicas podem descrever a beleza de uma obra da natureza, como a Vila Velha, esculpida pelo vento, ou podem contar as tristezas e as mazelas do viver excluído numa cidade, de ser um favelado vendo seus filhos crescerem analfabetos e sem futuro, e as duas podem agradar quem as lê, ou passarem despercebidas. Assim, quantos bons cronistas ficaram esquecidos na gaveta dos editores, quantos artistas passaram pela vida sem serem reconhecidos.
O artista sente sua inspiração, talvez baseado em suas emoções, em sua acuidade visual, em sua própria habilidade e técnica, procurando através da beleza ou da inovação, mudar os conceitos, abrir seu espaço ou encontrar seu lugar no mundo. A crônica nasce do pensar, um pouco da obrigação, muito do desejo de cumprir bem o que lhe pediram, de dar voz aos pensamentos. Quando é o melhor momento para criar, na arte ou na escrita? Para fazer alguma coisa que me agrade, penso nela várias vezes, durante meus outros afazeres, até sentir que a ideia amadureceu. No começo, como o artista que vai soltando suas amarras e numa linha apenas traça a sua obra maior, precisei escrever, riscar, apagar, até ficar satisfeita. Agora vou direto de minhas ideias ao computador e as palavras saem num fluxo constante, com a naturalidade de uma conversa.
