Mythica


Sérgio Monteiro Zan
Presidente da ALCG
Algumas amostras do breve ciclo de sonetos que ando inventando e que ainda permanece aberto, sob o título provisório de Mythica. É um retorno emocionado ao mito grecolatino, em textos dum caráter propositadamente neoclássico e, ao mesmo tempo, vestido dum certo matiz simbólico, inquieto e pleno de sentires contemporâneos. Os títulos, em grego e em latim, aguçam mistérios e perplexidades. E esperam do leitor o necessário mergulho nas fontes inesgotáveis do antigo manancial que há milênios vem dessedentando o mundo.
ΕΡΩΣ
EROS (I)
Transfundir-se ao pulsar da frágua misteriosa,
Que uma explosão de estrelas múltiplas espelha,
E ver toldar-se a susto a intensa nebulosa,
Num pálido tremor de lâmpada vermelha;
Ou, induzindo a fronte a linfa deliciosa,
Perceber que o desejo absurdo se assemelha
Ao desvario azul de inquieta mariposa
Ou a um voo extasiado e célere de abelha;
Abandonar a mente a lâminas e gumes,
Esquecer em beleza o olhar alucinado
E suscitar veneno em todos os perfumes,
Para depois morrer, tal qual morre a esperança,
Colhendo à cruz de um sonho, ardente e desolado,
O áureo beijo de amor que o lábio não alcança.
ΟΛΥΜΠΙΑ
OLYMPIA
Declina a sede augusta ao trom de mil tormentas.
Arde o ébano. E o cedro expande o último lume
Sobre a pedra e o marfim, em distorções cinzentas,
E o ouro retorna à terra aos pés do incerto nume.
Efêmeras desabam tristes, macilentas,
Colunas e frontões, num colossal queixume,
E os pórfiros do chão em gretas opulentas
Padecem sob o instante vândalo do ciúme.
Por que céus andarão os ouropéis bordados
De quimeras mortais e de ilusões divinas,
Sob o eterno ondular dos campos constelados?
Que resta a iluminar aos místicos faróis,
Se acabam por rolar na poeira das ruínas
As palmas do martírio e os louros dos heróis?…
ΟΡΦΕΥΣ
ORPHEVS
As margens do Aqueronte apagam-se na bruma,
Dissolve o ar gelado a terna melodia
E as notas soltas fogem, frágeis como espuma,
À medida que a voz languesce e silencia.
Que as rosas do passado tombem uma a uma.
Reclamar ao Averno a comoção de um dia
É permitir que a dor, bem antes que o consuma,
Extravase o licor da lenda e da magia.
Cá fora, um sem cessar de férvidas loucuras,
De sílabas de luz a páginas escuras,
Num jogo de paixão entre a ventura e o pranto.
Neste humano labor que vive, que respira,
É que as gotas de som devem brotar da lira,
E é aqui que alguém, poeta, há de escutar teu canto.
ΔΙΟΝΥΣΟΣ
DIONYSVS
Crepuscular, o bosque inflama-se, e os primeiros
Sons desiguais, mas lentos, chovem sobre as flores,
Despertam-nas, e a cena arcádia, entre clarores
Vivos, toda se oferta a assaltos sorrateiros.
E a dança intimorata os pés provocadores
Faz voarem sem peso, irônicos, fagueiros,
Num ritmo, que subverte e pasma os arredores,
De aulos, flautas, trompetes, crótalos, pandeiros.
Há cântaros replenos de comédia e drama,
Há rocios de paixão, e a taça que os derrama
Parte-se na nudez indecorosa e linda.
Quando o páramo atinge da ânsia e da loucura,
Cessa a dança. A exaustão cai sobre a mata escura.
− E esse querer voraz de estar dançando ainda!…
ΕΡΜΗΣ
HERMES
Não direi nada mais. Atormentado e mudo,
O ar que antes me nutria afoga-me e alquebranta.
A palavra imortal que desvendava tudo
Transfaz-se-me em soluço e expira na garganta.
Tombou-me o caduceu por terra. O golpe agudo
Triscou por um instante a calma sacrossanta
De Gaia, a primigênia, e o hipnótico veludo
Quase ignora o mistério e hesita e desencanta.
Sinto as asas dos pés pesarem-me, e as da fronte,
Galhardas uma vez, sequiosas de horizonte,
Escondem-me ora os olhos baços e vencidos.
Esqueceram-me alfim as claras embaixadas;
E o senso que busquei perdi-o entre as jornadas
Por céus que só logrei manter desconhecidos…
… E umas poucas trovas esquecidas pelos cadernos:
Teus lindos olhos (suponho,
Assim serenos, ao vê-los)
São duas ilhas de sonho
No mar dos meus pesadelos.
Um véu de névoa se adensa
Sobre o meu peito deserto…
Tão longe a tua presença…
E esta saudade… tão perto…
Meus versos em desmedida,
Invento-os de um sonho breve,
Mal decifrando na vida
Os versos que a vida escreve.
A trova, assim como a vejo,
Parece uma estrela-guia
Que leva a graça de um beijo
Aos lábios da Poesia.
O Doutor em Letras, Prof. Sérgio Monteiro Zan, ponta-grossense, é o Fundador da Cadeira 20 da Academia de Letras dos Campos Gerais, cujo Patrono é o cronista Guaracy Paraná Vieira. Publicou, em colaboração com Raul José Sozim, a edição bilíngue dos Temas Rurais do Brasil de José Rodrigues de Melo e Prudêncio do Amaral; e, também, o livro de sonetos As Horas Sonâmbulas, ambos pela Editora UEPG. Foto de Edison Luiz Brabicoski.
