Amélia Oberg Michaele. Dona Amelinha, como era carinhosamente conhecida, nasceu no ano do centenário de Ponta Grossa, em uma cidade que vivia o auge da influência europeia em sua arquitetura e consolidava seu desenvolvimento urbano.
Ao longo de sua vida, testemunhou profundas transformações na cidade, desde a perda de parte significativa de seu patrimônio histórico até a industrialização, a chegada de multinacionais e a intensa verticalização das últimas décadas.
Sua trajetória, porém, também se confunde com a própria história cultural de Ponta Grossa. Guardiã do legado intelectual de Faris Michaele, seu esposo, dedicou-se à preservação de sua memória e de sua obra. Incentivadora das artes e da literatura, destacou-se ainda como uma verdadeira mecenas da cultura local.
Desde os primeiros momentos, Dona Amelinha apoiou e ajudou a promover o Centro Cultural Prof. Faris Michaele. Sobre a reunião que deu origem à entidade, em junho de 1987, registrou em depoimento a Leonilda Hilgenberg Justus, no livro As Janelas de Leonilda: “Assim terminou aquela tarde memorável que marcou para sempre minha vida e, creio mesmo, a da cidade de Ponta Grossa no meio cultural”.
Seu envolvimento com a cultura prolongou-se por décadas. Na Academia de Letras dos Campos Gerais, onde Faris é patrono da Cadeira nº 16, recebeu o “Mérito Cultural Faris Michaele” em reconhecimento à sua dedicação à preservação da memória intelectual da região.
Mais do que uma referência cultural, era uma pessoa querida e respeitada. Gentil, discreta e dotada de fidalguia natural, tinha a rara qualidade de reconhecer e valorizar aqueles que trabalhavam pelas causas em que acreditava.
A primeira vez que ouvi sobre Dona Amelinha foi ao receber uma menção honrosa no concurso universitário promovido pela União Cultural Libanesa e UEPG, em 1977, sobre Faris Michaele e sua obra. Anos depois, ao assumir a presidência do Centro Cultural Prof. Faris Michaele, passei a conviver com ela. Sempre presente e atenta às atividades da instituição, destacava-se pela delicadeza com que reconhecia o trabalho daqueles que se dedicavam à cultura, em gestos que refletiam sua generosidade e elegância.
Por ocasião das comemorações do centenário de Faris Michaele, em 2011, ela foi presença marcante em todas as atividades realizadas. Um dos momentos mais simbólicos ocorreu quando, ao lado de Edmundo Schwab, então presidente do Centro Cultural Prof. Faris Michaele, descerrou a placa comemorativa instalada na praça contígua ao Centro de Cultura Cidade de Ponta Grossa, homenagem cuja idealização tive a honra de propor.
Nosso último encontro ocorreu em seu apartamento, quando manifestou o desejo de doar a coleção de 30 Bíblias de Faris Michaele, em diversos idiomas, para que o Centro Cultural Prof. Faris Michaele intermediasse sua incorporação ao acervo da Biblioteca Paranista Eno Teodoro Wanke, da Academia de Letras dos Campos Gerais.
Com seu habitual senso prático, preocupava-se em dar a cada objeto o destino adequado, zelando por sua correta preservação. Sentada em uma poltrona do antigo escritório que Faris não chegou a ocupar, orientava Douglas Passoni e a mim sobre a destinação de exemplares de suas obras, documentos, aparadores de livros, um porta-retrato e um quadro com a fotografia de Faris que deveria ser encaminhado à escola que leva seu nome. Foi uma das últimas demonstrações de seu cuidado em preservar e perpetuar o legado de Faris Michaele.
Fez a diferença sem jamais se preocupar com reconhecimento ou homenagens. Sua obra maior foi a transformação silenciosa que promoveu na vida de tantas pessoas. Sua ausência será sempre sentida. E, evocando os versos de Mário Lago e Ataulfo Alves, não pela simplicidade atribuída à personagem da canção, mas pela grandeza humana de quem deixa uma ausência irreparável, só nos resta exclamar: “Ai, meu Deus, que saudade da Amélia…”
*D. Amelinha nasceu no dia 4 de março de 2023 e faleceu no dia 25 de maio de 2026.