Divina Flor


Por diagramacao

“No dia que o mataram, Santiago Nasar levantou-se às 5h30min da manhã para esperar o navio em que chegava o bispo”

Gabriel García Márquez, Crônica de uma morte anunciada

Ilustração: cartão postal de 1910, coleção de Carlos M. Fontes Neto.

LUIZ FERNANDO CHERES

Desentendi: não a morte em si, estrebuchada, fedorenta, a escura, mas sua falta dele, ele constante presença, antes, a mão quente pelos peitos, eu arrepiada, a mão fervendo minhas vergonhas, descobrindo meus pelos crescidos, não sei, os pelos devem crescer? assim ser mulher? gente grande, adulta? Santiago disse Divina Flor, você já está em tempo de ser amansada! então corri não tanto dele homem, mas da vontade mesma de ficar se sei minha mãe não aprova estes amores, coitada, que o pai de Santiago fez mal nela, abandonou ela, coitada, então mamãe odiava Santiago e hoje deva estar comemorando sua morte, a cadela. Deus me perdoe! pecado falar da mãe, pensar da mãe, pecado tantas coisas que o padre diz e nunca tive coragem de confessar, Santiago me beijando na esquina da feira, madrugada, alguém será viu? Deus? o Anjo do Senhor? e o beijo? será sempre assim? me aquecendo toda da boca pra cima, da boca pra baixo, Deus me perdoe, eu três dias, três noites amolecida, de cama, mamãe estranha, eu só estranho o sangue, mamãe diz já é mocinha, não entendi, não entendo, soaram marretadas as palavras de Santiago amansada! amansada! amansada!

Amansada? daí Santiago morto, matado, quem me há de amansar? diz que fez mal pra noiva, por isso ela de volta, devolvida, não sei, será fez mal pra mim também? beijar, pegar com garras de gavião é fazer mal? então um dia serei devolvida? pelo noivo? que noivo nenhum o meu? e virá alguém matar Santiago… não! eu sou bobinha: é morto fedorento na sala, então ninguém virá matar defunto e o mal em mim jamais será vingado!…beijar será mal mesmo? se tão bom o beijo! que lembro gostoso, o movimento desmedido da boca, das mãos duras tenho um medão segurando minha nuca, peitos, bunda, aranha, lembra mamãe ameaçando Santiago, agora ele morto, morto não pega gostoso com garras de gavião, morto não beija, então eu beijo a saudade do beijo nos lábios vazios de vida, desejo, credo! mamãe não pode saber, do beijo não pode…

FUNDADORES DA ACADEMIA DE LETRAS DOS CAMPOS GERAIS

Luiz Fernando Cheres

CARLOS MENDES FONTES NETO

Luiz Fernando Cheres integra o grupo de fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais presentes no Jubileu de Prata da entidade. É formado em Administração de Empresas e Direito pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, onde também se graduou em Língua Portuguesa e Literatura da Língua Portuguesa.

Apesar de sua vida profissional ter sido pautada em atividades tais como funcionário da Caixa Econômica Federal, como gestor em ensino infantil e advogado nas áreas Cívil e Família, é nas letras que encontrou sua vocação e talento. Fato que já o perseguia desde a época universitária, quando organizava eventos linguísticos e literários. Foi colaborador do informativo “O Proletrado” e membro do conselho editorial do informativo cultural “Ponta a Ponta” onde também fazia críticas literárias. Participou do Grupo Lambe Lambe como Diretor Artístico do Setor de Teatro, e integrou diversas comissões julgadoras de festivais de Teatro e de Música, demonstrando uma intimidade com essas expressões artísticas. Essa vertente se revela na autoria de peças teatrais, como por exemplo, “Basta Apenas Acreditar” (em coautoria), “O Gato e o Grito”, Memórias do Arco-Íris” e “Pessoas Querem Voar”. Já como crítico literário acabou por ser convidado para integrar diversas comissões julgadoras de concursos literários.

Como autor se revelou um refinado contista e cronista, além de circular com maestria pela poesia. Isso lhe rendeu premiações, tanto por aqui quanto nacionalmente além de participações em importantes mostras de poesias. Sua literatura alcançou reconhecimento através de várias publicações pela Universidade Estadual de Ponta Grossa, Unicentro, Fundação Cultural de Paranavaí e Prefeitura Municipal de Ponta Grossa. As características que tornaram sua obra literária digna da apreciação de uma legião de leitores que são seus fãs abrangem aspectos como o estilo e originalidade com que desenvolve contos e crônicas mostrando sua habilidade em criar personagens e enredos com abordagem quase naturalista. Isso lhe valeu convites para participar de antologias e publicações que marcaram a Cultura da cidade, como por exemplo “Antologia de Poetas e Prosadores Ponta-grossenses”, do Centro Cultural Prof. Faris Michaele (organizada por Leonilda Hilgenberg Justus, 1995), “Literatura e mulher: das linhas às entrelinhas” (organizado por Luísa Cristina dos Santos Fontes, 2002) e “Contos e Crônicas da Prática Jurídica” (2013) e na Revista D’Pontaponta. Em 2010, publicou pela PROEX UEPG em volume único os livros: “Amar não é preciso” (poemas) e “Um beijo longe dos lábios” (contos).

Além das inúmeras premiações, ainda recebeu, em 1996, a Homenagem Especial da XIII Semana da Cultura Bruno e Maria Enei e em 2008 foi homenageado pelo Rotary Club. Mas mais do que isso recebe o reconhecimento de leitores que mesmo que tenham gosto diverso acabam seduzidos pela coerência da narrativa, construção de personagens e riqueza vocabular.

Foto Edison Luiz

*Carlos Mendes Fontes Neto é engenheiro e ocupa a cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais.

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