
Contar histórias é uma arte milenar. Sempre houve quem contasse histórias.
Assim, contar história é uma prática que traz, em suas raízes, marcas de ancestralidade. Nas sociedades tribais primitivas, o contador de histórias desempenhava o papel de transmissor do conhecimento de crenças, costumes, valores. Platão, na sua obra República, já se refere sobre a importância de contar contos para a educação das crianças gregas, “primeiro os contos, depois a ginástica”. Aristóteles reconhecia que ouvir uma boa história permite a liberação de emoções reprimidas, tem efeito catártico.
Contar histórias é um exercício de linguagem que não exige espaço fechado, nem aparatos tecnológicos específicos. Basta que alguém conte e outro ou outros ouçam.
O melhor lugar para ouvir uma história depende de quem a conta. Pode ser em uma sala de aula, na sala de casa, na mesa de jantar, em uma biblioteca, embaixo de uma escada ou de uma árvore, em uma praça, na beira de um rio, ou em um jardim ou campo. Qualquer lugar!
Basta ter alguém que tenha paixão pela palavra e prazer em dizê-la. Todos esses lugares são transformados pelo narrador em sala de rei, rainha, pátios de castelos, campos de batalhas onde vivem rainhas e princesas, heróis e bandidos. Cada lugar, inserido na história enriquece a narração.
Para criar este universo rico, fantástico, o contador de histórias é um grande leitor. Ele lê muito! Livros, gestos, situações e pessoas. Ele lê muitas histórias, procura… procura… até encontrar aquela que lhe toca de uma forma muito especial. Ele lê o movimento da vida que se desenrola aos seus olhos. Ele observa, analisa, cria e recria leituras, gestos e situações.
O bom contador de histórias é aquele que descobriu que brincar com as palavras é prazeroso. Por isso, escolhe sempre contar aquela história que trouxe para ele sentidos e significados. A história que lhe tocou a alma, aquela que amou que lhe deu prazer de inventá-la e reinventá-la.
Quando se conta uma história, abre-se um espaço para o pensamento mágico. A palavra, com seu poder de evocar imagens, vai instaurando, naquele que ouve, uma imagem mágico-poética, resultado do gesto sonoro e do gesto corporal.
Na maioria das vezes, o contador de história, ao preparar a narrativa, faz um trabalho solitário. Sozinho, conta história para as paredes, para o espelho, treinando caras e bocas. Depois, este prazer que sentiu ao criar a narrativa, experimenta novamente, quando conta a história para o outro e vê a alegria, a emoção, estampadas no rosto de quem a ouve. Uma história, ainda que de forma velada e subliminar, ensina sempre uma vez que quem ouve a história acessa o seu mundo afetivo-emocional.
Assim, contar histórias vai muito além de focar apenas na palavra falada. Esta arte está atrelada a tantas outras como a literatura (poemas, parlendas, contos, fábulas, anedotas), a expressão corporal, a música.
Parabéns a este profissional que com sua arte, sem preocupações didáticas, emancipa e forma novos leitores. O sujeito ouvinte é o sujeito leitor!
A todos os contadores de história a nossa gratidão e homenagem.
Lançamento da Academia de Letras dos Campos Gerais
Academia de Letras dos Campos Gerais
– 27 anos –