Bravíssimo, Gusmão!


Por Redação Diário dos Campos

A redação fechou mais cedo numa gélida manhã chuvosa de outono em Ponta Grossa. Depois do incessante trabalho ao longo das décadas, o chefe redator encontrou hoje o seu descanso merecido, deixando com que o silêncio e o legado das suas letras e das suas ações falem agora por ele.

Foi assim, com muita tristeza, que recebemos a notícia de que o nosso amigo e confrade Gusmão fechou a porta do seu ofício sagrado porque teve a sua viagem antecipada para o lado de lá. As novas edições ficaram no prelo, enquanto a vasta produção realizada de 1969 a 2026 será, a partir de agora, toda ressignificada, servindo-nos não apenas de admiração e de preciosa fonte de informação, mas também de consolo sempre que a saudade falar mais alto.

Onde está a palavra, ali está o Gusmão.

Quem, no entanto, era aquele homem por trás dos bastidores da escrita? Quem era aquela pessoa por trás do nome que assinava as edições, que entrava em contato, que entrevistava, que redigia e editava?

Só quem o conheceu é testemunha do seu jeito cativante e brincalhão. Era empolgação, era energia, era mesmo um pouco de caos, era falar alto, rir alto, protestar alto, perguntar alto, interromper alto. O redator não era um ser de papel, mas cheio de vida. Não importava o quão desgastante havia sido concluir um projeto, as noites em claro, a tensão antes do fechamento de uma nova edição da revista: se fosse para sair da toca, era para sair de corpo presente.

Ativo com a escrita desde a adolescência, inúmeras foram as suas realizações ao longo de mais de meio século. Foi repórter, ajudou a criar um centro acadêmico, festivais literários e de música e concursos de contos, tendo sido também uma das vozes mais atuantes da imprensa e da comunicação princesina. UEPG, FUC, FENATA, ALCG. Siglas indissociáveis do seu nome.

Escrever, para ele, não era apenas um ofício. Era uma necessidade, uma terapia e também uma devoção. Daí fez-se o seu pão sagrado de cada dia.

Tendo a escrita como a sua companhia íntima desde a adolescência, tendo crescido, criado barba e ficado grisalho em torno dos textos, o mundo das palavras, assim como ele próprio, era um mundo cheio de vida.

Sendo assim, escrever o prefácio da nova edição da sua revista não era senão a overture de uma sinfonia da qual ele cuidou de cada detalhe. Ter sido lido pelo Gusmão? Uma honra. Ter ouvido dizer que ele não precisou editar muito um texto seu? Um verdadeiro acontecimento. Ter sido elogiado por ele? Ah, isso valia mais que qualquer prêmio.

Numa época sem emprego, volta e meia eu resolvia dar uma passada na redação da D’Pontaponta, lá pelos idos de 2011, que ficava no Jardim Carvalho. Saía a pé da Madureira e entendia a passagem na revista como uma recompensa. Ele sempre me chamava pelo nome e sobrenome. Nunca me lembro de tê-lo visto parado. Estava sempre de lida. Um contato novo, um telefonema, um convite, um evento, um lançamento, um jantar. Sempre alguma coisa. Na mesa, era capaz de ter cinco convites para a mesma noite, dando às vezes a palavra de que apareceria nos cinco. E, contudo, raríssimas eram as vezes em que ele não dizia ter tempo para a minha visita espontânea. De frente para o monitor, às vezes entre um e outro trago do cigarro ou até mesmo de uma cerveja merecida, ele mostrava com paixão o esboço da nova edição da sua revista, sempre na expectativa de superar a anterior. Um entusiasmo como poucos são capazes de expressar pela própria profissão.

Mas, muito mais que isso, diria eu que o Gusmão era também como um cupido cultural. Ele não queria estar em evidência, mas impulsionar carreiras, ver a coisa em cena, ver justamente tudo saindo do papel. Era aquele tipo de pessoa que vibrava mais pelas conquistas e pelo reconhecimento dos amigos do que eles próprios. Ele abria as portas da redação com o mesmo acolhimento da família que sempre tem espaço para mais um. Ficou sabendo de alguém que escreve, pinta, fotografa, borda, dança, inventa, cozinha, traduz, empreende? Vamos atrás dele! Isso tudo em meio à gestão de uma revista que também era uma empresa, com todos os seus custos, todas as negociações. Impressões, matérias, entregas, patrocínios, anúncios, adaptações, prazos.

Da minha parte, tenho uma gratidão imensa por todas as vezes em que me recebeu, acolhendo-me entre sua esposa, seus filhos e todos os presentes da redação como parte de uma mesma família. As vezes em que me surpreendia com uma matéria, as vezes em que me ligava, quando queria publicar um texto, quando queria saber o que eu estava aprontando para divulgar, quando me dava uma bronca por estar sumido. Nesse tempo de convivência, conheci muita gente por causa dele. E, assim como aconteceu comigo, estou certo de que inúmeras foram as pessoas que transitam pelo mundo da escrita e das artes que tiveram o Gusmão como uma espécie de olheiro.

No nosso dialeto, carinhosamente daqui para frente, sempre que o seu nome for mencionado, haveremos de dizer com um sorriso no rosto e também um leve aperto no peito: “Gusmão? Mazói, pense num caboco bão!”.

Quando o encontrei em uma das últimas edições do FENATA, na qual foi homenageado na abertura, ele estava mais sério, em primeira fileira, talvez se contendo para não se abalar. Olhando-o lá em cima, no palco, a receber o prêmio, sorri e fiquei feliz por ele. Tão merecido. E pensei na gratidão que tenho por tudo o que ele já fez por mim, como fez por centenas de outras pessoas. Ele, que dedicou anos de vida escrevendo sobre o reconhecimento que queria ver nos outros, era o grande homenageado.

Nas festividades de final de ano, ele enviou saudações pelo grupo da ALCG, dando destaque especial para a sua neta, um motivo a mais para a felicidade. Quando o vi na última solenidade, em março deste ano, por ocasião do aniversário da ALCG, lá estava ele, todo elegante e sorridente com a sua pelerine, e me cumprimentou, ficando depois à mesa com o Cheres e o Ruiter. Pensei: sorte dos dois; hoje o papo será bom.

Tendo dedicado uma vida toda às letras, talvez o confrade Gusmão gostasse também de ser homenageado assim, com um texto. Penso que ele não partiu, mas que a redação do além estava precisando de alguém à altura, e de algum lugar que ainda nos é desconhecido o nosso redator Gusmão seguirá observando tudo a partir do plano espiritual.

No final da edição, estaremos todos juntos.

Nota da coluna: O jornalista Eduardo Gusmão dos Anjos Sobrinho é o Primeiro Ocupante da Cadeira 25, da Academia de Letras dos Campos Gerais, que tem como Patrono José Fernandes Cadilhe e Fundador Eno Theodoro Wanke. As fotos são do acervo de Luísa Cristina dos Santos Fontes (Cadeira 5).

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