
Por Fabiana Cambricoli – Estadão Conteúdo
Novo estudo feito por cientistas brasileiros sugere que a variante p.1 do coronavírus, originada em Manaus, pode escapar dos anticorpos produzidos pela Coronavac, fabricada pelo Instituto Butantan e principal imunizante usado na campanha de vacinação contra a covid no País, destaca o Estadão.
Os dados ainda são preliminares, pois foram obtidos com base em uma amostra pequena de voluntários (8) e precisarão ser confirmados por pesquisas maiores, mas acendem alerta sobre o impacto da nova linhagem na eficácia das vacinas.
O estudo é de cientistas de instituições como USP e Unicamp e publicado na segunda-feira (1) na página de pré-prints (artigos ainda não revisados por outros cientistas) da revista científica The Lancet.
O grupo coletou plasma de oito voluntários de testes da Coronavac que haviam recebido as duas doses há cerca de cinco meses e testaram a atividade neutralizante dos anticorpos no plasma contra a cepa P.1 e contra variantes da linhagem B (a mais comum no País até então).
No teste, observaram que o nível de anticorpos capazes de deter o vírus foi mais baixo para a P.1 do que para a linhagem B, ficando abaixo do limite de detecção no exame. Os cientistas ressaltam, porém, que a diferença entre as duas cepas não pode ser considerada estatisticamente significativa porque foram poucos voluntários e o nível de neutralização em ambos os casos era bastante baixo.
Reduz severidade
Anticorpos ineficientes
O estudo traz outro dado preocupante: anticorpos formados por pessoas já contaminadas pelas cepas anteriores parecem não ser capazes de barrar a P.1. Os cientistas analisaram o plasma de 19 recuperados de infecções antes do surgimento da variante e verificaram redução de seis vezes na capacidade de neutralização dos anticorpos contra a P.1 em comparação com as variantes da linhagem B.
Segundo eles, os dados sugerem que a P.1 é capaz de escapar das respostas de anticorpos neutralizantes gerados por infecção prévia e “a reinfecção pode ser plausível com variantes com mutações na proteína spike”. Por isso, os cientistas destacam que poderá ser necessária a aplicação de dose de reforço, atualizada para a cepa.
Variante mais transmissível
Ainda não se sabe se o aumento de carga viral pode tornar a doença em adultos mais agressiva, mas o aumento da quantidade de vírus no organismo contribui para que essa cepa seja transmitida com mais facilidade.
O outro estudo, feito pelo Centro Brasil-Reino Unido de Descoberta, Diagnóstico, Genômica e Epidemiologia de Arbovírus (grupo Cadde), do qual a USP faz parte, utilizou dados genômicos e epidemiológicos para analisar as características da P.1. A partir de um modelo matemático, os cientistas verificaram que a nova variante é de 1,4 a 2,2 vezes mais transmissível do que as anteriores e tem uma probabilidade 25% a 61% maior de escapar da imunidade desenvolvida a partir de uma contaminação prévia por outra cepa.
Os autores ressaltam que mais dados e estudos são necessários para definir quanto a nova variante é mais transmissível ou propensa a causar reinfecções. O estudo investigou ainda a disseminação da linhagem pelo Brasil e verificou múltiplas vias de introdução da cepa em Estados do Sudeste, principalmente por viagens aéreas.
Máscaras
Nas duas pesquisas, os autores ressaltam a importância das chamadas medidas não farmacológicas, como uso de máscara e distanciamento social, pata deter a disseminação da P.1 e evitar que surjam novas variantes.
“A falta de distanciamento social eficiente e outras medidas de mitigação provavelmente aceleraram a transmissão precoce da P.1, enquanto a alta transmissibilidade desta variante alimentou ainda mais o rápido aumento de casos de SARS-CoV-2 e hospitalizações observados em Manaus após seu surgimento”, declararam os autores no artigo científico.