Retratos Paranistas III


Por Redação Diário dos Campos

Paisagem assinada por “Jacobus van Wilpe” na inconfundível letra de Freyesleben, datado de 01 de junho de 1958. A lápis, na letra de Jacobus: “pintado por Freyesleben”.

Paisagem assinada por “Jacobus van Wilpe” na inconfundível letra de Freyesleben, datado de 01 de junho de 1958. A lápis, na letra de Jacobus: “pintado por Freyesleben”.

A Quatro Mãos

Quando os amigos de Jacobus van Wilpe vinham à Chácara Pitangui, em Ponta Grossa, —  Curt Freyesleben e Kurt Boiger, sempre, Estanislau Traple e Arthur Nisio algumas vezes — era para pintar, e pintar juntos.

Posavam uns para os outros, pintavam naturezas-mortas, recantos da chácara, por onde cor-ria o Pitangui. Numa tarde no campo, Freysleben e Boiger pintavam duas ou até três telas, En-quanto Jacobus levava para casa a tela apenas desenhada, iniciada, mas nunca completa.

Os outros reclamavam, diziam que ele tinha que soltar a mão e a pincelada, ser menos deta-lhista.

Nunca adiantou. Jacobus pintava de memória, ao longo de vários dias, pincelada a pincela-da. Nisso, era quase um impressionista.

Certa vez Freyesleben impacientou-se, tomou o esboço de Jacobus e o concluiu rapida-mente. Depois trocariam assinaturas no canto da tela. Muitas vezes pintava enquanto Jacobus trabalhava, o que lhe rendeu pelo menos uma tela famosa e premiada: “Campos Gerais”, de 1953.

Nos retratos de Ilse Van Wilpe (1924-1986), pintados ao mesmo tempo, Jacobus assina ambos, mesmo o de Freyesleben. Na delicadeza do único retrato que Jacobus pintou na vida, os olhos do amor.

No quadro que pintaram a quatro mãos, Boiger e Freyesleben não disputam espaço: Boiger faz o rosto, captura os olhos azuis e a expressão curiosa da modelo, que olha para trás.

 Freyesleben escolheu a perspectiva, fez o restante da cabeça, o lenço, as costas. Jacobus, que não perdia uma piada, apelidou o retrato de “O Boi Zebu”, criticando o volume do dorso pintado por Freyesleben. Mas nunca deixou de expô-lo em seu próprio ateliê, afinal, estava as-sinado por ambos.

Enquanto Kurt Boiger excursionava pelo país, expondo dezenas de telas a cada mostra, Freyesleben e Jacobus jamais fizeram uma exposição individual. “Quem não quer vender não deveria expor”, pensava Jacobus, embora ambos gostassem de participar de coletivas e salões.

“Campos Gerais”, óleo sobre tela de Waldemar Curt Radovanovic Freyesleben, 1953. Prêmio de Aquisição no Salão de Belas Artes do Clube Concórdia. Acervo do Clube Curitibano. Na tela, Jacobus plantando batatas na Chácara Pitangui.

Ilse (Kindler) van Wilpe, retratada por Freyesleben, em data ignorada. Nota-se a assinatura “Freyesleben” na caligrafia de Jacobus van Wilpe. Acervo particular.
Retrato de Ilse van Wilpe, óleo sobre tela de Jacobus van Wilpe, sem data. Único retrato pinta-do pelo pintor. Acervo particular.

Retrato de Ilse van Wilpe. Óleo sobre tela de Kurt Boiger e Waldemar Curt Radovanovic Fre-yesleben, 1953. Acervo particular.

*Renato Van Wilpe Bach é médico, professor universitário e escritor. As fotos são do acervo do autor.

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