Pesquisando e aprendendo nas trilhas do Buraco do Padre


Por Redação Diário dos Campos

Como diria um velho cronista:

Corriam os anos de 1980. Eu tinha muita curiosidade sobre a região dos Campos Gerais. Desde muito pequena ouvia meu avô e meu pai contarem as belezas que conheciam em suas expedições de caça a codornas e perdizes.

Projeto

Quando iniciei meus projetos de pesquisa na Universidade Estadual de Ponta Grossa em um para conhecer, junto com alunos, os municípios e suas riquezas naturais, tive o apoio de minha colega e amiga, professora Elisabete Alves Pinto.

Sempre que decidíamos o alvo de nossa próxima viagem (de um dia só) tinhamos todo um ritual. Primeiro era obter a licença dos proprietários para conhecer o local e após testarmos e aprovarmos, em outra data levar junto conosco os alunos que queriam colaborar.

Em Itaiacoca

Estávamos conseguindo visitas nas fazendas históricas de vários pontos dos municípios marcados.
Mas este que vou narrar não iremos, eu e a Bete, esquecer nunca. Nosso objetivo era a capela da Fazenda “E nasce o dia”, em Itaiacoca.

Licença concedida, uma linda e ensolarada quarta feira, lá fomos em busca da tal relíquia religiosa. A fazenda estava passando por uma reforma interna, modernizadora, e no alto de uma colina lá estava a linda capela. Fizemos nosso ritual de conhecer as características da casa e da capela. Um calor de 28° C, coisa difícil no clima de nosso tempo. Terminamos, e o capataz da fazenda perguntou se queríamos conhecer o “Buraco do Padre”. Eu já tinha ouvido histórias do meu pai e entusiasmei a Bete. Vamos?
As duas maluquinhas, com roupas inadequadas, fomos aventurar. Tem algum guia?

Os funcionários, trabalhando na reforma, nem responderam.

Um só foi nos abrir a porteira.

Capim alto

Era um lugar estranho, com capim muito alto, ou nós muito “baixinhas”, um mato beirando a cerca, no lado esquerdo e no meio do terreno um morro cheio de caraguatá.

Qual o caminho, perguntei, e o guia respondeu: tem um carreiro bem pisado. Vão por ele.
Veja só, estávamos longe da fazenda, sozinhas, de arma só tínhamos uns bons berros, roupas de ir para a Universidade, mais perdidas que aluno fazendo prova, uma disse prá outra, vamos?

Qual coragem nos atacou não sei. Fomos. Olhamos o capim e só vimos uma trilha mal marcada e andamos pelo carrascal. Eu de bota com salto alto.

Parecendo como os bandeirantes paulistas, suadas, com sede, fome e vontade de desistir, até que, de repente, encontramos um homem bem estranho e que nos deu um pouco de medo. Ele perguntou o que queríamos ali.

Confessamos que estávamos perdidas e que queríamos chegar ao nosso objetivo. Ele riu e falou: aqui no morro? O caminho é lá em baixo na beira do mato. Dito isso foi embora. Pro um pouco nós duas usamos palavras que não se repetem e depois tivemos que descer o morro. O sol queimando a cabeça, a roupa molhada do esforço, não teve outro jeito. Rolamos até o caminho certo e a surpresa foi linda. No meio das árvores um lago de água gelada coberto de agrião, verdes e deliciosos, matou nossa sede e fome.

Caminhando entre pedras e o riozinho, vários escorregões, eu enfiei minhas botas na água gelada e ficamos nos deslumbrando com aquela paisagem única, belíssima, onde não voltei mais nem uma vez. No dia seguinte acordei com 39° de febre.

Agradeço até hoje ter ido com alguém corajosa como a Bete. Duas malucas que até hoje rimos das inúmeras loucuras feitas nas fazendas, com abóboras e pinhões. Valeu não é amiga?

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