
Desde os tempos imemoriais, as pessoas têm o hábito de invocar proteção divina para a família e o lar. Na casa dos antigos romanos já havia o costume de cultuar divindades em altares domésticos. Esses altares ficavam localizados na entrada da casa, em pequenos nichos nas paredes. Eram conhecidos como Lares ou Penates.
O costume é comprovado ao se caminhar pelas ruínas de Pompéia ou Herculano, onde alguns átrios ostentam vestígios dos deuses protetores das casas. A principal função deles era de garantir que nunca faltassem provisões e segurança ao ambiente doméstico, além de proteção contra a fúria de outros deuses que provocavam terremotos, furações ou erupções vulcânicas.
Com o passar do tempo esse costume foi absorvido pela tradição católica e que nos tempos medievais, principalmente nas regiões da Itália, Espanha e Portugal, incorporou o costume de colocar santos cristãos em nichos no alto das fachadas das casas ou edificações religiosas. A imagem do santo na fachada é considerada, na nossa cultura, como forma de proteger e abençoar o lar e seus moradores contra todos os infortúnios, conforme descreve o frei holandês Francisco van der Poel no Dicionário da Religiosidade Popular.
E mais, ainda, esses santos eram escolhidos de forma que tinham a ver com a fé das pessoas que na casa residissem. No século XVIII, principalmente em Portugal, a imagem de Santo Antonio se popularizou como santo protetor dos lares e das famílias.
Os santos mais comuns que encontramos nas fachadas das casas do Brasil são: São José, Santo Antônio, São Francisco, Santa Rita de Cássia, e é claro, Nossa Senhora Aparecida. Isso é considerado demonstração pública de fé, além de mostrar a identidade cultural e religiosa do lugar.
Esse hábito foi muito difundido nos séculos XVII e XVIII pela Igreja Católica, sedimentando a religiosidade das famílias. Assim, muitas das construções que resistiram ao tempo apresentam, ainda, essa rica iconografia religiosa. Em Portugal e nas colônias, além dos nichos, surgiu o costume de ostentar azulejos pintados com imagens de santos.
A tradição dos santos do lar ainda persistiu por boa parte do século XX, porém devido aos avanços da urbanização moderna e a secularização da sociedade, o costume foi pouco a pouco sendo abandonado nas cidades modernas. Principalmente em centros urbanos que não preservam o patrimônio arquitetônico.
Mas, podemos observar exemplos isolados, principalmente em subúrbios ou comunidades do interior, que ainda mantêm a tradição religiosa. São comunidades que ainda consideram o santo de casa como parte da família: com ele, o fiel desfruta de uma relação direta e pessoal, carregada de emoção.
Santo de Casa em Ponta Grossa
Em Ponta Grossa tínhamos vários exemplos desse costume, mas atualmente é cada vez mais difícil identificar construções que ostentam na fachada tais elementos. Às vezes achamos uma casa com o nicho, mas ele está vazio, demonstrando que apenas ficou como lembrança de outros tempos.
*O autor é engenheiro, mestre em Planejamento e Projeto Urbano e ocupante da cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais.
**As fotografias são do acervo do autor.
