Investigação esclarece autoria de documento histórico de PG


Por Redação Diário dos Campos
Cambiju

Diário dos Campos de 7 de setembro de 1922. Antiga sede da Fazenda Cambiju, uma das mais antigas dos Campos Gerais. A edificação foi demolida, não restando vestígios de sua estrutura original. Desenho em grafite elaborado a partir de fotografia antiga, de autoria desconhecida e em avançado estado de deterioração. (Autor: Carlos M. Fontes Neto, 2007)

Cambiju
Diário dos Campos de 7 de setembro de 1922. Antiga sede da Fazenda Cambiju, uma das mais antigas dos Campos Gerais. A edificação foi demolida, não restando vestígios de sua estrutura original. Desenho em grafite elaborado a partir de fotografia antiga, de autoria desconhecida e em avançado estado de deterioração. (Autor: Carlos M. Fontes Neto, 2007)

NOTA: A coluna Sherlock Holmes Cultura apresenta este recorte, publicado no Diário dos Campos, foi objeto de pesquisa de Maria de Lourdes Osternach Pedroso quando ainda era aluna da professora Guisela Veleda Frey Holzmann, no curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ponta Grossa, na década de 1960.

O texto integrava um trabalho acadêmico que permaneceu sob a guarda da professora por muitos anos, sem identificação de autoria. Recentemente, contudo, o original foi localizado entre os documentos da própria pesquisadora, o que permitiu esclarecer sua procedência. Cumpre destacar, ainda, que o conteúdo faz referência ao Centenário da Independência do Brasil.

Assim, após mais de seis décadas, encerra-se o ciclo dessa investigação, agora devidamente elucidada quanto à autoria. No texto, foi preservada a grafia original da época e, ao final, apresenta-se um glossário com termos hoje pouco usuais.    

Aproveitamos a ocasião para reapresentá-lo em celebração aos 119 anos do Diário dos Campos, fundado em 27 de abril de 1907.

CARLOS MENDES FONTES NETO

O Rodeio

Notas autenticas fornecidas pelo Sr. Antonio José Pereira Branco, um dos heróis do nosso passado e dos poucos sobreviventes dessa falange de bravos paranaenses que o Centenário polidamente comemora:

Parava-se rodeio na fazenda do Cambiju.

Como de costume, inúmeros fazendeiros vizinhos, com seus séquitos de laçadores, pialadores e sobretudo cavaleiros, assistiam a esse trabalho na mais festiva e álacre camaradagem.

O bom laçador é um indivíduo sumamente complexo: é uma entidade que se compõe do bom homem, bom cavalo e bom laço; faltando um desses complementos o laçador é um simples parnanguara no sentido mais pejorativo do vocábulo.

Assistíamos entre outros, os melhores laçadores desta zona pastoril: Quinco, Sinhoca, Jango Branco, Afonso Marcondes, Cesário Xavier, etc. e também os irmãos Dr. Raphael e Frederico Lopes Branco; viera igualmente em nossa companhia um mulato, escravo do fazendeiro gaúcho Salustiano Martins, que se achava morando em nossa fazenda do Guaraúna, acompanhado de grande fama de laçador e cavaleiro. Para ele escolhera-se o mais fogoso e abagualado cavalo de fazenda. Éramos mais de vinte cavaleiros, convenientemente postados em um rincão denominado Espera das Éguas; para o fundo do campo tinham ido peões dar volta pela margem do Tibagi para suspender o gado que por ali estivesse. Achava-se conosco a personalidade preponderante do já Barão de Guaraúna; esperávamos, ali, a vinda dos peões e do gado suspendido, quando divisamos, correndo desembestadamente, uma mula arreada que escapara aos peões e, com enorme ruído de estribos a bater-lhe pelos flancos, se dirigia espavorida para o lado da manada das éguas gavionas.

O Senhor Barão, prevendo o estouro que iria causar na manada espantadiça, gritou para todos: – Aos laços, senhores! Lacem a mula! Num momento, vinte braços boleavam largas meadas de laços, numa furiosa corrida, de pontos diversos para um só ponto; entre os cavaleiros adiantava-se o mulato gaúcho; magnificamente montado, emparelhava-se para logo, o temível competidor pontagrossense Quinco Branco, e à porfia disputavam a primazia no lançamento do primeiro laço. Quinco, suplantado na corrida por uma rodada de seu cavalo, da qual saíra-se galhardamente, em pé, agitando no ar o peleguinho, símbolo do sangue frio, que todo bom cavaleiro o leva por cima da sobrecincha, especialmente para esse fim e para mostrar que não deixou sujar-se, tocando a terra…

Mas… ao cavalgar de novo, já o mulato gaúcho lançava o seu laço de um modo todo especial: com o tiro horizontal apanhasse infalivelmente a cabeça do arreio, o gaúcho lançou seu laço por cima, meada grande e bem aberta, descrevendo uma longa curva indo cair e enlaçar precisamente pelo fiador (fino do pescoço).

O Senhor Barão que, entusiasmado, assistia de uma colina, o desenrolar desta cena, gritou no auge do entusiasmo: – Um conto de réis pela liberdade desse negro. Frase esta, que só por si, bem define o caráter e coração do grande patrício.

Glossário de Termos Regionais e Campeiros
Parava-se rodeio: indica que estava sendo realizado ou organizado um rodeio. O verbo “parar”, nesse contexto antigo e regional, não significa interromper, mas sim promover, reunir ou instalar o rodeio — ou seja, juntar o gado e os peões para os trabalhos campeiros
Pialadores – Peões especializados no uso do pial, corda empregada para laçar e prender as patas do animal, geralmente com o objetivo de derrubá-lo e imobilizá-lo.
Álacre – alegre, animado, cheio de entusiasmo.
Parnanguara – Termo regional de sentido pejorativo, utilizado para designar indivíduo sem habilidade, inexperiente ou desajeitado nas lides campeiras.
Abagualado – Diz-se do animal bravio, rústico e pouco domado, característico de grande resistência e vigor.
Suspender o gado – Expressão utilizada no meio rural que significa fazer o gado levantar-se e movimentar-se, conduzindo-o de um ponto a outro.
Éguas gavionas – Designação para éguas ariscas, inquietas e de difícil manejo, propensas a se assustarem com facilidade.
Boleavam – Ato de girar o laço no ar, em movimento circular, preparando o arremesso.
Pórfia – disputa, competição insistente ou rivalidade obstinada.
Peleguinhos – Pequenas peles, geralmente de ovelha, colocadas sobre a sela para maior conforto; no contexto, também simbolizam destreza e sangue-frio do cavaleiro.
Sobrecinta (ou sobrecincha) – Correia de couro que passa sobre a sela, reforçando sua fixação ao dorso do cavalo.
Fiador – Parte mais fina do pescoço do animal, próxima à cabeça, ponto preciso onde o laço pode se ajustar.
Patrício – Indivíduo natural da mesma terra; conterrâneo, frequentemente empregado com conotação de apreço e respeito. 

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