O quadro perdido de Kurt Boiger


Por Redação Diário dos Campos

“Menina”, óleo sobre tela de Kurt Boiger, data ignorada, circa 1960. Acervo particular.

“Menina”, óleo sobre tela de Kurt Boiger, data ignorada, circa 1960. Acervo particular.

Retratos Paranistas I

Durante seu período na prisão, entre 1942 e 1946, Kurt Boiger (1909–1974), pintor alemão radicado em Curitiba, executou mais duzentos retratos, do diretor da prisão a outros detentos, passando por funcionários e suas famílias, além de visitantes ilustres. Os tipos humanos que o período na Ilha Grande, no Rio de Janeiro, permitiu-lhe pintar, mudaram a forma e a função de sua pintura — eram muito diferentes de seus clientes até então, a maioria personagens da elite sulista, branca e de origem europeia.

Como o mestre Andersen e seus amigos Traple e Freyesleben, Kurt fazia dos retratos seu principal ganha-pão. Paisagens também vendem, mas têm público mais restrito. Moveleiro, reconhecido como artista neste ramo (nos anos 1930, seu ateliê Arte Mobiliária chegou a vender móveis ao palácio do Catete), no pós-guerra peregrina pelo país, indo repetidas vezes a Joinville e Blumenau, onde também lecionou, expondo e vendendo seus quadros. Expõe em São Paulo, Rio de Janeiro e no Nordeste.

Era um prodígio: suas mostras sempre se aproximavam de uma centena de obras. Sua individual no Museu Nacional de Belas Artes, em 1948, por exemplo, foi composta de 120 quadros.

Nas viagens adquire o hábito de pintar pelas ruas, em troca de uns tostões para o modelo, por vezes pago com um almoço ou com próprio quadro recém-pintado. A menina negra, de tranças, de idade indefinida, vestida pobremente, foi uma dessas modelos, que ele construiu em suas andanças pelo litoral paranaense. Devem ter conversado um pouco, claro, enquanto ele a desenhava e pintava, separados pelo cavalete na calçada, mas nunca lhe soube o nome. Antes que ele pudesse lhe perguntar ou se despedir, a menina, envergonhada, fugiu. Kurt jamais a reencontraria, mas guardou o retrato para si, um de seus próprios favoritos.

A “Menina” (nome sob o qual foi comercializada) não é um tronie, como a Moça com Brinco de Pérola, de Johannes Vermeer (1665). É uma pessoa real, captada em um instantâneo que vai além do fotográfico, mas que parece entregar sua alma e personalidade ao espectador. Poderia se chamar “Menina de Trança”, essa brasileirinha: o olhar inquiridor, perfeitamente retratado pelo pintor, a curiosidade entrevista em sua postura, no sorriso indecifrável, prescindem de uma alcunha.

Meu avô, Jacobus van Wilpe (1905–1986), cunhado de Kurt, também pintor, amava esse quadro e queria uma cópia. Kurt achava que não tinha cabimento, uma ideia dessas; não se faz cópia de um retrato.

A cada visita de Jacobus a Curitiba, o pedido era reiterado. Tanto fez Jacó, que Kurt assentiu, mas não sem provocar: fez uma cópia idêntica, exata, perfeita nos mínimos detalhes, a única cópia de um quadro que ele realizou na carreira.

Esta cópia permaneceu na família van Wilpe por mais de cinquenta anos, acompanhando três gerações. Nos anos 2010, foi roubada, com vários quadros de Jacobus cujo paradeiro é desconhecido. A família Boiger vendeu a original pouco depois.

Recentemente, recuperamos a “Menina”, mas não conseguimos descobrir se se trata da tela original, ou da cópia. Uma das obras-primas de Boiger, voltou para a família, mas seria um pecado que permanecesse desconhecida do público.

*Renato Van Wilpe Bach é médico e escritor, com um importante trabalho de pesquisa sobre arte paranista.

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