
Em 1912 nasceu Catharina Felde, que hoje lembro com carinho: minha mãe. Nem sempre nosso convívio foi fácil; quase sempre queríamos coisas diferentes.
Foi uma grande mulher e, em sua melhor fase da vida, uma linda descendente de russos-alemães: pele clara, olhos verdes de gata, sorriso fácil, fácil de amar e de ser amada.
Viveu entre 1912 e 1998 e testemunhou as grandes transformações do século XX. Iniciou sua vida profissional, e, por seus próprios relatos, sei que foi uma das primeiras jovens a trabalhar atrás de um balcão de vendas na Bomboniere Voigt, na Rua XV. De lá saiu para se casar.
Morou sempre na casa da família Mansani, onde ajudou a cuidar de alguns de seus cunhados. Para a sociedade da época, já era considerada candidata a solteirona; para os padrões de hoje, porém, ainda era muito jovem para assumir um casamento.
Viveu numa casa cheia de gente e conviveu com a sogra durante todo o tempo em que minha avó esteve viva.
Aprendeu, a duras penas, a assumir a maior parte das responsabilidades daquele enorme casarão onde eu e meu irmão nascemos.
Foi a melhor dona de casa que conheci. Manteve a ordem e os cuidados que uma grande família exigia. Aí residia nosso maior contraste: eu gostava de brincar e, com o passar do tempo, descobri o que mais amo na vida — ler.
Meus avós, da família Felde, não dispunham de uma situação financeira confortável para criar tantos filhos e filhas. Os meninos tinham prioridade. Minha mãe fez apenas o curso básico no Colégio Santana, aquele típico colégio das varas de marmelo nas pernas: aprendia-se por bem ou por mal.
Embora eu nunca tenha querido ser professora, comecei a exercer esse papel dentro de casa. Peguei uma régua bem comprida de meu tio e ensinei várias moças que trabalharam para nossa família e também para meus tios. Sem varas de marmelo, a régua bastava. Fui alfabetizadora.
Percebendo como era fácil ensinar, procurei também aparar as arestas com minha mãe. Quando não se pode vencer um adversário, o melhor é conquistá-lo para o próprio lado. Mamãe era contra eu perder tempo lendo os grandes autores ingleses e russos.Passei então a incentivar seu gosto por romances mais leves. Era um tempo simples de viver: tempo de amizades, de visitas, em que os vizinhos acabavam se tornando parentes. Em frente à nossa casa morava uma professora apaixonada por livros. Dona Liz me ajudou muito a “viciar” minha mãe na leitura. Os romances atravessavam a rua, com temas bem diferentes dos que eu lia. Lembro-me de alguns: O Sheik, O Filho do Sheik, Mestiça, A Toutinegra do Moinho e outros melhores, como A Moreninha, O Tronco do Ipê e tantos mais. Nossa combinação era simples: primeiro o trabalho, depois a leitura. Comigo funcionava assim: terminada a leitura, vinha o trabalho.
Naqueles tempos — décadas de 1930 e 1940 —, para que uma mulher fosse valorizada, não bastava cuidar perfeitamente da casa. Era praticamente obrigatório saber fazer doces, tricô, crochê, bordados… Tudo isso fazia parte do universo perfeito de dona Catharina. Quem provou seus pãezinhos ainda se lembra deles, assim como da Coroa de Frankfurt e de seus bifes impecáveis. Meus filhos que o digam.
Encontrei outro jeito de escapar da vigilância de dona Catharina. Quando estava no último ano do Curso Normal, cansada das faxinas de sábado e inspirada pelo pequeno romance A Pequena da Casa Sloper, fui trabalhar. Meu expediente era de oito horas por dia e, à noite, frequentava o Curso Técnico de Comércio do seu Altair.
Como eram as roupas no tempo de dona Catharina? Não me lembro de lojas exibindo vestidos ou casacos nas vitrines. Lembro-me, sim, das inúmeras costureiras.
Minha avó possuía uma excelente máquina de costura Singer — tão boa que consegui costurar um dedo nela. Dali saíam aventais, saias para o dia a dia e roupas simples para o trabalho. Comprava-se o tecido conforme o modelo desejado. Se fosse algo mais elegante, o molde vinha da revista Burda; se fosse mais simples, bastava dizer: “Olha, dona Isaura, quero com gola, dois bolsos e abotoado na frente.” Quem determinava a elegância era o tecido. E onde comprar tecido? Às quatro da tarde, pegavam-se a bolsa e a sombrinha — mamãe usava Antisardina para proteger a pele — e saía-se a pé pelas lojas. Os tecidos mais simples eram comprados na Casa Marlene, na esquina do Banco do Brasil. Os mais finos, na Casa Juanita, no coração da avenida. Encontravam-se brocados que pareciam bordados, tafetá francês, tules rendados, casemiras, lãs e até tweed inglês. Para casacos de inverno, o caminho era um só: procurar um bom alfaiate. No caso de meu pai, era o senhor Firak, também na avenida, considerado o melhor da cidade. Até que minha mãe encontrou a solução para suas roupas mais elaboradas: a grande costureira dona Otilinha Loenert, impecável na confecção de peças perfeitas, em sua casa-ateliê na Rua Coronel Dulcídio. Faço questão de destacar essa grande estilista, cujo nome reverencio para que seja lembrado. Pontos para minha mãe, sempre muito bem vestida, sóbria nas cores e elegante nos modelos.
Minha mãe ficou livre de minhas mazelas quando me casei, aos vinte e dois anos, em 1959. Mas a tranquilidade durou pouco. Lá fui eu cumprir meu plano de vida: ter muitos filhos. Comecei cedo. Com apenas um ano de casada nasceu o primogênito e me vi sem horizonte. Eu era o avesso de minha mãe. Não tinha seu domínio sobre a casa, nem gostava dos trabalhos domésticos. Mas engoli a pílula e segui em frente.
Dona Catharina, a querida da família, dos cunhados, das cunhadas, dos sobrinhos, das sobrinhas e de todos que dela se aproximavam, tornou-se meu porto seguro. Ajudou-me a criar meus quatro filhos. A ela devo muito.
Quando partiu para o descanso da vida, compreendi, enfim, o verdadeiro significado de duas palavras: Saudade e Ausência.
*Aída Mansani Lavalle é historiadora e membro fundadora da Academia de Letras dos Campos Gerais