Conheça a história do santuário Bom Jesus do Monte de Vieiras, em Palmeira


Por Redação Diário dos Campos

A primeira das capelas construídas em Vieiras, inaugurada em 29 de janeiro de 1935 (foto de arquivo de família).

A primeira das capelas construídas em Vieiras, inaugurada em 29 de janeiro de 1935 (foto de arquivo de família).

Amadeu Teixeira Pinto e Bento Luís da Costa, imigrantes portugueses. Amadeu Teixeira Pinto nasceu em Baião, um distrito do Porto, Portugal, em 1871. Com seu pai trabalhou em função pública, no Correio local, até vir a imigrar ao Brasil, em 1884. O outro imigrante foi o idealizador e construtor do Santuário de Vieiras. Seu nome é Bento Luís da Costa, nascido em 1884, em São Paio de Merelim, distrito de Braga. 

De Braga ao Paraná

Ele tomou o navio La Plata em Lisboa, em novembro de 1896. Bento tinha apenas 12 anos de idade quando embarcou para o Rio de Janeiro. Antes de partir sua mãe, Ana Costa, o levou a rezar no Santuário Bom Jesus do Monte, em Braga, deu-lhe um rosário e despediu-se dele. Bento veio para trabalhar em Curitiba com seu tio na “Fábrica de Chapéos e Chapéos de Sol”, na rua XV de novembro, número 47.

Em Palmeira

Como consta em sua biografia (escrita por Marilis do Rocio Costa, casada com um dos seus netos), ele não se deu bem com este tio, que o maltratava. Mas, em 1905, já com 21 anos, foi convidado por Amadeu a se inscrever no Escritório de Terras para Imigrações de Curitiba e viajar com ele de trem até Palmeira. Na época, Palmeira era uma pequena vila, mas importante polo de imigrantes, que havia recebido D. Pedro II em sua histórica visita ao Paraná, em 1880, antes da construção da ferrovia. As linhas ferroviárias entre Curitiba e Ponta Grossa, foram inauguradas em 1894. Segundo a biógrafa Marilis do Rocio Costa: “Os imigrantes chegaram a Vieras, localidade distante 35 km de Palmeira, onde se fixaram.  

Bento considerava Amadeu um irmão. Com ele aprimorou a leitura e a escrita e teve lições de administração que levou para uma vida toda”. Em Vieiras e Diamantina (atual Angaí), montaram uma serraria e um entreposto e armazéns de erva-mate. Palmeira vinha atraindo muitas levas de imigrantes. Em 1890, vieram os italianos, com Giovanni Rossi, líder anarquista e socialista que ali instalou seu experimento, a famosa Colônia Cecília.

Imigração

A região já tinha várias colônias de imigrantes alemães do Volga. Eram as colônias Pugas e Quero-Quero e, um pouco mais distante, a de Papagaios Novos. A imigração portuguesa foi também encaminhada aos Campos Gerais, aproveitando a rota dos tropeiros. “No trecho entre Palmeira e Irati apareceram pousadas de carroceiros que transportavam erva-mate e madeira, sendo as principais: Papagaios Novos, Rio de Areia, Tocas e Diamantina (Angaí). Segundo Arnoldo Monteiro Bach, em seu livro “Carroções”, o idealizador das capelinhas foi Bento Luís da Costa.

Inauguração da igreja

Amadeu e Bento eram casados com duas irmãs, Joaquina e Amélia Wood, filhas de imigrantes ingleses. Amadeu casou-se em 1900, em Antonina, e Bento, em 1910. Para casar-se Bento construiu uma igreja e obteve autorização do bispado para a inauguração, em 1910, na Colônia Vieiras. O casamento civil teve que ser em Palmeira. Tiveram seis filhos cada um, e juntos trabalharam cerca de 50 anos nos sertões do Paraná. Foram anos difíceis, sem estradas de rodagem, apenas caminhos carroçáveis, sem luz elétrica ou água encanada (somente poços e nascentes). Em Vieiras criaram os filhos e sobrinhos e tiveram muitos “camaradas”, como chamavam seus trabalhadores rurais.

Primeira capela do Santuário

A primeira capela do Santuário foi inaugurada em janeiro de 1935 para comemorar bodas de prata do casamento de Bento e Amélia; a segunda, em 1950, a terceira e a quarta, em 1952, em homenagem à mãe de Bento, as demais aos santos de sua devoção, e à N.S. de Fátima que ele acreditava ter protegido sua família desde que veio para o Brasil. Algumas tiveram motivos especiais como homenagem à esposa Amélia e também a um milagre.

Após 50 anos de trabalho, tornaram-se homens ricos e em uma das capelas consta a inscrição “agradecimento por termos enricado no Brasil”.  Em 1962, Bento inaugurou a 14ª. e última, em homenagem aos chamados “homens honrados”, entre eles Amadeu Teixeira, e anexou nela foto dele com Joaquina e os netos.

Milagre

O milagre citado se deveu a uma situação de dificuldades. Bento, certa época, estava muito endividado e já não sabia o que mais fazer, e teria feito um pedido ao Bom Jesus do Monte: “Certo dia, sai e olhei a imensa reta muito comprida que vai do alto da capelinha até a Igreja. Pensei, naquele momento, comparando-a a minha imensa dívida, que também era muito grande. E fiquei refletindo sobre a difícil situação e a conclusão a que cheguei foi de que: só se Deus me ajudasse com um bilhete premiado de loteria… ’’ Bento conta que teve que ir com Amélia consultar um dentista em Ponta Grossa para aprontar uma dentadura para ela.

Na cidade, comprou um bilhete de loteria. Uma semana transcorrera após comprar o bilhete de loteria e não sabia o porquê se demorava tanto na cidade, pois tinha que retornar aos Vieiras para trabalhar. Em Ponta Grossa, ficou hospedado em casa do cunhado Benjamim, casado com outra jrmã de Amélia. Passou uma semana esperando o dentista aprontar a dentadura de Amélia e ela não entendia por que ainda não retornava. Dona Amélia foi quem viu, após sete dias, num jornal de Ponta Grossa, em um domingo, a notícia: “sorte grande saiu para bilhete vendido em Ponta Grossa”. Ele era o contemplado com milhares de contos de réis.

Santuário Bom Jesus do Monte de Vieiras

O santuário Bom Jesus do Monte de Vieiras é inspirado no homólogo do mesmo nome, em Braga, que Bento Costa visitou com sua mãe pouco antes de embarcar para o Brasil. Bento e Amélia eram muito devotos, especialmente de N.S. de Fátima e foi para figurar no Santuário de Vieiras que levaram a Portugal, segundo sua biógrafa, em um dos retornos, um pedaço de cedro paranaense para nele ser esculpida, por artista português, a imagem da santa para a capela-mor a ela devotada.

Amadeu faleceu em 1958, aos 87 anos, e Bento em 1974, com 90 anos. Bento desejava que seu nome fosse sempre lembrado associado ao Santuário que hoje é mantido pela família Costa e associado aos santos de sua devoção e aos homens que o ajudaram na sua vida. É uma bela história de amor, trabalho, e dedicação, um belo Santuário campestre, hoje espaço público de peregrinação, lazer e natureza, preservado no segundo planalto.

As capelinhas do Santuário de Bom Jesus do Monte de Vieiras, fotografia de Orlando Azevedo

Texto escrito por José Luiz Pinto Pereira, médico neuropsiquiatra de Curitiba e bisneto de Amadeu Teixeira Pinto.

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