Chuva de Ouro


Por Redação Diário dos Campos

O “Chuva de Ouro” quando da demolição no início dos anos 2000.

O “Chuva de Ouro” quando da demolição no início dos anos 2000.

Ponta Grossa era uma cidade pequena nas décadas de 1920 e 1930. Poucas ruas eram calçadas; a maioria, ainda de terra batida, quando chovia virava um lamaçal, quando fazia sol, uma poeira sufocante erguia-se, principalmente quando ventava muito, castigando os transeuntes.


Esse vento, característica dos Campos Gerais, açoitava os moradores em certos meses, e à noite, parecia um lamento pungente pelas esquinas e ladeiras da pequena cidade.


Na época, havia uma rua particularmente especial em Ponta Grossa, mesmo com vento e chuva estava sempre movimentada. Era a rua Engenheiro Schamber – nominação que homenageava um engenheiro que trabalhou na construção da Ferrovia Ponta Grossa- Curitiba. Essa rua começava por uma ladeira que subia para a Rua XV de Novembro, passava pela Praça Mal. Floriano Peixoto, ao lado da Catedral Sant’Ana, e seguia adiante, descendo a ladeira novamente, em direção aos antigos trilhos da ferrovia que atravessava a cidade.


Na altura de onde se acham hoje as instalações do Corpo de Bombeiros, as casas baixas, compridas, dos dois lados da rua eram ocupadas pelo mulherio de “vida fácil”. A popular “zona”. Durante o dia quase ninguém andava por ali, mas à noite, o movimento era significativo.


Nestas casas havia música, danças, comidas e bebidas, e muita mulher bonita. Existiam, também, algumas casas luxuosas, somente os endinheirados frequentavam.


A “proprietária” de uma dessas casas – na verdade um figurão que era o proprietário do negócio – de nome Ercília, alta, loura, de olhos pretos, uns 40 anos, muito bonita, mantinha um plantel de lindas jovens. Mas a concorrência era grande, e a cidade relativamente pequena, e era necessário inovar sempre para manter a fiel e lucrativa clientela.


Resolveu então, Ercilia, fazer uma reforma em sua casa. Durante uma semana não houve função na mesma, o que aguçava a curiosidade dos frequentadores, alguma coisa inédita seria apresentada na inauguração.


Chegou a noite aguardada. Era um sábado. A clientela, indiscriminadamente, acorreu em peso ao local.
A casa estava feericamente iluminada. O salão de festas havia sido ampliado, mas por volta das 21 horas já estava lotado.


Chegou a meia noite. Houve uma pausa na música. Todos ficaram em suspense e, em meio ao silêncio que se fez. Após alguns acordes do clarinetista, o teto se abriu em parte e uma chuva de confetes dourados caiu sobre a multidão. Os pedacinhos de dourados de papel flutuavam no ar e caiam lentamente sobres as pessoas, sobre as mesas, dourando tudo. Assim a casa ficou conhecida como “Chuva de Ouro”.

Detalhe do salão mostrando a abertura do teto por onde a “chuva de ouro” acontecia.
Parte do salão principal, com paredes decoradas por afrescos estilo art decô, já em processo de demolição.

Os afrescos refletiam aspectos de costumes da época.

Detalhe da parede com afrescos.

Guisela Veleda Frey Chamma foi professora, historiadora, pesquisadora e uma das fundadoras do Departamento do Curso de História da Universidade Estadual de Ponta Grossa. Foi presidente do Centro Cultural Prof. Faris Michaele, membro fundadora da Associação Germânica dos Campos Gerais e fundadora da cadeira 9 da Academia de Letras dos Campos Gerais.
*As fotos são do acervo de Carlos Mendes Fontes Neto.

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