Álvaro Borges – O PintorMetafísico dos Campos Gerais


Por Redação Diário dos Campos
WhatsApp Image 2026-07-16 at 18.47.56 (2)
WhatsApp Image 2026-07-16 at 18.47.56 (2)

Quando aluno do Colégio Regente Feijó, Álvaro Borges (Ponta Grossa, 1928 – Curitiba, 1994) já era artista. Começou a desenhar aos cinco anos e, aos oito, realizou sua primeira exposição individual, com desenhos de personagens da História do Brasil, em um grupo escolar de Ponta Grossa. Por isso, a historiografia costuma classificá-lo como autodidata.

No Regente Feijó, contudo, recebeu aulas de desenho com José Antônio Daros, que lhe deu, segundo a Enciclopédia Itaú Cultural, “uma orientação segura, voltada para o objetivismo visual”. Ex-aluno de Alfredo Andersen, Daros ainda recomendou que Borges se dedicasse, antes de tudo, ao desenho.

A ideia do autodidatismo absoluto perde força quando acompanhamos Álvaro até Curitiba, para onde se transfere em 1946. Ali conhece Loio Pérsio e, entre 1953 e 1955, frequenta à noite as aulas de Estanislau Traple e, depois, de Thorstein Andersen. Como tantos artistas paranaenses de sua geração, nunca viveu exclusivamente da pintura. Construiu carreira na publicidade, atividade que sustentou a família e lhe garantiu independência artística. Autodidata, sim; solitário, nunca. Formou-se pela convivência com mestres, pelo desenho diário, pelo trabalho e pela observação persistente da paisagem.

A partir de 1957 tornou-se presença constante nos salões de arte da capital, recebendo Medalha de Bronze no Salão Paranaense de 1959. Em 1963 realizou sua primeira individual na Galeria COCACO e, em 1966, fundou, ao lado de Érico da Silva, Alberto Massuda, René Bittencourt e Waldemar Roza, o Grupo Um, importante coletivo da renovação modernista paranaense.

Participou de pelo menos dezenove exposições, realizou individuais no Rio de Janeiro (1973) e em São Paulo (1977) e teve, em 1992, uma retrospectiva organizada pelo Museu de Arte Contemporânea do Paraná. Pouco antes de morrer preparava, com seus três filhos artistas — Rogério Borges, ilustrador; Álvaro Borges Júnior, designer gráfico, artista plástico, jornalista e publicitário; e Mauro Borges, fotógrafo — a mostra Os Quatro Borges, inaugurada postumamente no Solar do Rosário, em 1995.

Embora tenha vivido em Curitiba, jamais rompeu os vínculos com Ponta Grossa. Retornava frequentemente para rever a família e pintar os Campos Gerais. Talvez por isso sua obra mais madura tenha encontrado justamente na paisagem regional sua expressão mais profunda.

Verdadeiro experimentador, Álvaro Borges partiu do realismo de formação andersiana, passou pela abstração, pelo grafismo experimental e pelo surrealismo simbólico, culminando numa pintura de caráter metafísico. Se Giorgio de Chirico encontrou a metafísica nas praças italianas, Borges a encontrou nos horizontes silenciosos dos Campos Gerais, transformando a paisagem regional em memória e contemplação.

Embora pouco estudado pela academia, Álvaro Borges jamais foi um desconhecido. Suas obras integram os acervos do MAC-PR e do Museu Oscar Niemeyer, permanecem valorizadas em galerias e leilões e são reconhecidas por colecionadores e estudiosos da arte paranaense. Paradoxalmente, sua cidade natal ainda lhe dedica menos atenção do que sua importância justifica.

Este artigo não existiria sem as pesquisas pioneiras de Adalice Araújo, Fernando Bini, Domício Pedroso, Ennio Marques Ferreira e do jornalista Aroldo Murá, fundamentais para a compreensão da trajetória de Álvaro Borges.

*Renato Van Wilpe Bach é médico e escritor.

Sair da versão mobile