
Você não tem a impressão de que as campanhas publicitárias dos anos 90 eram mais criativas do que a maioria das que vemos hoje? Lembrou das campanhas do Bombril, não foi? Sempre a mesma figura. Sempre simples. Uma ideia central bem executada. E décadas de lembrança.
Se algo não está rodando de maneira satisfatória, imediatamente vem à mente: “está faltando alguma coisa”. Mais verba. Mais ferramentas. Mais gente. Mais testes. Mais possibilidades. Quase sempre, a resposta da mente é “mais”.
O dia a dia da minha consultoria negocial costuma mostrar exatamente o contrário: quando o empresário chega acreditando que algo está faltando, na maioria das vezes o cenário revela que está sobrando. Excesso de frentes abertas, de informações, de ferramentas, de possibilidades. Há coisas demais sobre a mesa. E, por estar próximo demais das decisões, muitas vezes já não é possível enxergar isso.
Voltando às campanhas dos anos 90, naquela época as ferramentas eram mais limitadas, as equipes mais enxutas e a margem para erro muito menor. Não havia banco de imagens infinito, nem ferramentas que gerassem centenas de variações. Havia menos recursos e menos tentativas.
Hoje o cenário é o oposto. Há armas demais à disposição e você continua uma pessoa só. Qualquer empresário médio tem acesso a mais ferramentas do que empresários de gerações anteriores. Plataformas, dashboards, automações, métricas, redes sociais, cursos, mentorias, modelos prontos.
Ter mais opções não significa saber usá-las melhor. A própria palavra opção indica que deve existir escolha. E quanto mais escolha, mais energia de decisão se consome. É preciso escolher inclusive para poder se concentrar em algo. É preciso, ainda que temporariamente, afastar as demais. Essa limitação é uma decisão consciente. É a escolha de reduzir o ruído para enxergar com clareza e agir.
Quando tudo parece possível, a pior decisão passa a ser não decidir, tentar fazer tudo ao mesmo tempo (ou misturar as coisas). Se temos 100 versões viáveis, nenhuma recebe o rigor que merece. Se há dinheiro para compensar uma ideia fraca com produção cara, a grande ideia deixa de ocupar o seu espaço. O excesso de caminhos compromete a direção.
A limitação favorece a resolução porque impõe critério. Obriga escolha. Exige renúncia. Reduzir possibilidades concentra energia e exige naturalmente mais profundidade.
O exemplo do mundo da publicidade é apenas um ponto de partida. A lógica se aplica às estruturas societárias, ao portfólio de produtos, à expansão, à contratação e à tecnologia, entre outros. Complicação virou equivocadamente sinônimo de crescimento.
Ao aceitar que não dará conta de tudo, você cria espaço para dar conta do que realmente importa. Criar restrições intencionais é uma forma de governança pessoal e, por que não, empresarial. É decidir que nem toda oportunidade merece atenção, que nem toda ferramenta precisa ser contratada, que nem todo projeto deve avançar apenas porque é uma boa ideia.
Talvez o que esteja criando essa pressão constante, essa sensação de que as coisas não avançam ou de que sempre falta algo, não seja escassez. Talvez seja justamente o contrário: excesso. Excesso de frentes, de ferramentas, de iniciativas, de compromissos, de decisões adiadas.
Minimalismo e essencialismo valem pouco se forem apenas filosofia… No dia a dia empresarial, só funcionam se forem práticas diárias que levam à decisão e à ação.
Trago uma pergunta que costuma me trazer clareza instantânea. Toda vez que você se deparar com a sensação de que está faltando algo, eu recomendo mudar na hora a pergunta para: o que é que está sobrando? A resposta quase nunca está em adicionar. Está em remover.
Jefferson Wegermann é consultor jurídico-empresarial, advogado há mais de onze anos e especialista em planejamento e estruturação de negócios. Acredita que a perspectiva aliada à fluidez são elementos essenciais para quem deseja deixar um legado de excelência. @jeffwegermann | jefferson@wegermann.business
