Uma história de amor e de ódio nos Campos Gerais


Por editor

História rendeu um romance intitulado “O Drama da Fazenda Fortaleza” (1945) / Foto: Divulgação

História rendeu um romance intitulado “O Drama da Fazenda Fortaleza” (1945) / Foto: Divulgação

Uma das histórias mais intrigantes da região dos Campos Gerais, é a que conta as desventuras dos proprietários da lendária Fazenda Fortaleza, enorme latifúndio situado no município de Tibagi. O português José Félix da Silva Passos, entre o final do século 18 e início do 19, foi quem se aventurou nessa região inóspita, povoada por muitos indígenas e ainda com resquícios do trabalho apostólico dos jesuítas espanhóis às margens do Rio Tibagi.

Credenciado pelas autoridades portuguesas, o indômito desbravador marcou suas posses ao longo de trinta léguas quadradas, nelas cravando a bandeira do domínio luso que, antes, no dealbar do século 17, fora objeto de ocupação por parte da Coroa Espanhola.

Um forte em Tibagi

José Félix construiu a sua sede à semelhança de um forte: altas muralhas ao redor da residência e das outras casas, que serviriam para organizar a defesa e rechaçar os contínuos ataques dos silvícolas. A par disso, incrementou a criação de gado e a exploração de ouro e diamantes, bem protegido por uma guarda de inúmeros escravos e mercenários.

Rico, poderoso, foi seduzido pela beleza de Onistarda Maria do Rosário, paulista de Taubaté, com quem se casou e deu início a uma vida conjugal conturbada, repleta de altos e baixos, de ciúmes patológicos, de violências e de verdadeira guerra diária entre ambos.

Um homicídio mal planejado

Nem o nascimento da filha Ana Luíza conseguiu abrandar a vida permeada por discórdias e por paixões violentas que se tornaram rotina no dia-a-dia do casal. Tudo foi num crescendo até que Onistarda, considerando-se vítima do gênio iníquo do marido que a amava fora dos limites da sanidade, resolveu mandar matá-lo.

Porém, os dois sicários empreitados foram repelidos pelo varão que, no desforço, perdeu todos os dedos de uma das mãos e saiu ferido nos pés que o tornaram coxo. Já por essa época, José Felix era pessoa de acentuado prestígio, tornando-se, inclusive, o primeiro intendente de Castro (1789), cuja jurisdição ainda abrangia o extenso território de Tibagi. Talvez por isso, e também pelo fato de ser uma das maiores fortunas da Província de São Paulo, ele recorreu à Justiça e dela obteve a singular decisão no sentido de que a esposa permanecesse encarcerada numa cela construída na própria da sede da Fazenda Fortaleza, cuja pena perduraria até o momento da morte do marido.

Entre índios e mercenários

A partir desse episódio, José Felix procurava não se ausentar da Fazenda, temeroso talvez que sua esposa, auxiliada por terceiros, pudesse escapar da prisão. Vigiava constantemente e nutria desconfiança com estranhos que ali aportassem. Em paralelo, ainda precisava se manter atento à presença de índios coroados (kaingangs) que, volta e meia, atacavam a sede e precisavam ser repelidos à força de armas.

Visita de Saint-Hilaire

Em 1820, o sábio francês Saint-Hilaire, de passagem pela região, teve que ficar hospedado na Fazenda Fortaleza, não obstante ouvisse comentários de que o proprietário era extremamente rude com seus escravos e com sua esposa. No entanto, portador de recomendações das autoridades portuguesas e à falta de outro local de hospedagem, teve que permanecer por ali alguns dias.

José Félix, porém, acolheu-o prontamente e mostrou-se bastante interessado no trabalho feito pelo viajante que colhia e classificava plantas, empalhava pássaros e outros animais, destinando tudo a futuros estudos. Diariamente vinha até à pequena casa que colocara à disposição do cientista e ali ficava horas conversando, ouvindo explanações e explicações sobre os mais variados assuntos. Esses encontros e diálogos e, mais ainda, as circunstâncias que levaram à prisão de Onistarda, foram relatados por Saint-Hilaire na obra “Viagem a Curitiba e Província de Santa Catarina”, editada na França.

Relacionamento familiar

Com a mulher presa na cela cujas chaves somente José Felix possuía, o ambiente geral, no entanto, era o pior possível, acrescido agora da malquerença que a filha Ana Luíza também demonstrava pelo pai e que mais se acentuou quando a moça apareceu grávida e teve que casar com Manoel Inácio do Canto que, sem ser o responsável, aceitou em recebê-la como esposa.

Esse casal, então, foi residir em local distante, mas dentro dos lindes da Fortaleza, onde nasceu o fruto dos amores de Ana Luíza, cujo verdadeiro pai ela se negava a revelar. Mas, pouco tempo depois, veio a falecer Manoel Inácio, fato que acelerou o retorno da jovem viúva e de seu filho à sede da Fazenda.

O menino, aos poucos, caiu nas graças do avô que o cumulava de atenções, inobstante o pesado clima de discórdia que não cessava na casa grande: eram gritos e lamentos de Onistarda que varavam a noite, desconfianças de José Felix quanto à fidelidade pretérita da esposa encarcerada, as quais também se estendiam à filha em razão de suas misteriosas relações.

Morte de José Felix

Tudo corria dentro desse clima de discórdia quando, no mês de abril de 1822, José Felix veio a falecer repentinamente, culminando por ensejar o derradeiro capítulo da tragédia familiar que, lenda ou verdade, é reverberado na tradição oral: Onistarda, finalmente libertada por Ana Luiza, dirige-se até à sala do velório e, como despedida final da relação de amor e de ódio, lança uma cusparada no rosto de seu inerme algoz, sob os olhares assustados de servos e vizinhos…

Um império herdado

Mãe e filha herdam o império de 60.000 alqueires que, décadas depois, ficam para o neto Manoel Inácio do Canto e Silva, em seguida ao seu genro Barão de Monte Carmelo e, finalmente, à poderosa empresa global Indústrias Klabin.

– Esta história rendeu um romance intitulado “O Drama da Fazenda Fortaleza” (1945), escrito por Davi Carneiro e, ainda, um projeto de filme da cineasta paranaense Berenice Mendes.

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