O dia em que vacas previram um ‘ciclone’ em Ponta Grossa


Por editor
Registro de estragos após passagem de tornado por Ponta Grossa (PR), em 1927

Registro de estragos após passagem de tornado por Ponta Grossa (PR), em 1927 - acervo de pesquisa Josué Corrêa Fernandes)

Registro de estragos após passagem de tornado por Ponta Grossa (PR), em 1927
Registro de estragos após passagem de tornado por Ponta Grossa (PR), em 1927 - acervo de pesquisa Josué Corrêa Fernandes)

A história antiga da cidade registra alguns fenômenos naturais que impuseram medo e destruição. Em 1883, conta Manoel Cyrillo Ferreira que, por volta das duas horas da manhã, os céus ficaram iluminados por cintilante cometa que estendia sua cauda de milhares de quilômetros por sobre o pequeno ajuntamento urbano, infundindo temores ancestrais de mensagem divina e de prenúncio de castigos: “a enorme cauda, em forma de grandes raios, como se fosse um nascer do sol em aurora nunca vista, aos poucos ia se avolumando de modo que, ao amanhecer, o seu corpo descomunal tomava quase todo o horizonte, na imensa altura do firmamento”.

Não era, com certeza, o Halley que, varando os céus em 1834, só reapareceria em 1910. No entanto, os ponta-grossenses foram tomados do mesmo misto de assombro e terror quando do aparecimento do mesmo Halley em 1456, que determinou aos católicos a oração angélica do meio-dia diante da cólera divina motivada pela conquista de Constantinopla pelos turcos

Chega um ciclone em Ponta Grossa

Mas a catástrofe mais significativa desses tempos ocorreu a 11 de setembro de 1906. Naquela terça-feira mormacenta que prenunciava a primavera, algo estranho passou a ser notado pelos moradores: o gado leiteiro que pastava nos quarteirões do Rocio, como que obedecendo a uma convocação misteriosa, passou a cruzar rapidamente a atual Avenida Vicente Machado dirigindo-se às matas do Pontão dos Bugres (Hospital 26 de Outubro, Shopping Palladium), para abrigar-se debaixo do grande capão de pinheiros que ali existia. Para as pessoas mais velhas, acostumadas a observar o comportamento dos animais, aquele inusitado cortejo bovino despertou temores inexplicáveis, quase sempre ligados a eventos da natureza.

Registro de estragos após passagem de tornado por Ponta Grossa (PR), em 1927 – (acervo de pesquisa Josué Corrêa Fernandes)

Cerca de duas horas depois caiu, então, a grande chuva de pedras acompanhada pela orquestra de trovões e relâmpagos e por intensa ventania. Blocos de gelo de trezentos a quatrocentos gramas abateram-se sobre a povoação durante trinta minutos, gerando pânico e destruição: quase todos os telhados foram reduzidos a cacos, forros vieram abaixo, casas derruíram. Somente às cinco horas é que a tromba d’água amainou, possibilitando a que as pessoas saíssem ao largo e vissem, irresignadas, o que sobrara da saraiva.

Num lugarejo então acanhado, cerca de duas mil casas foram atingidas. Cercas, muros, construções feitas de madeira vieram abaixo. Parecia o Armagedom.

Porém, como diz o adágio, “os ciclones devastam, mas não são eternos”: poucos meses depois do flagelo, a cidade, como a fênix, conseguiu emergir do desconsolo e do desânimo, reconstruindo o que a natureza, em seus ocultos desígnios, havia destruído.

*Este texto integra a coluna Memória Viva, de autoria do pesquisador Josué Corrêa Fernandes, e publicada semanalmente no jornal Diário dos Campos.

**Nota do editor: a grande tempestade de 1906 não seria a última. Em 1927, outro grande evento climático provocou destruição, deixou feridos e até mortos. Somente há poucos anos, pesquisadores da UEPG concluíram ter se tratado de um tornado.

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