
No fim do século 19 e início do século 20, o surgimento de monges milagreiros na região dos Campos Gerais registra fatos interessantes. Essas pessoas, vestidas com roupas simples, barbas e cabelos longos, perambulavam pelas estradas e fazendas, com rosários, patuás, cruzes de madeira, ministravam conselhos ao povo e, não raras vezes, chamavam a si as funções de sacerdotes, batizando crianças e liderando orações coletivas. Também receitavam remédios da flora medicinal e ensinavam diversas simpatias. Pela região, três monges deixaram suas marcas na memória do povo.
O primeiro de três monges
O primeiro desses monges teria sido João Maria de Agostini, italiano de Piemonte, que se internou por algum tempo na gruta da Lapa. Em seu registro de entrada no país, consta que ele era frei, solteiro, com 43 anos, de profissão solitário eremita. Sua estatura era baixa, tinha pele de cor clara, cabelos grisalhos, olhos pardos, nariz regular, barba cerrada, rosto comprido e não tinha três dedos da mão esquerda. Dedicava-se a orações e a penitências, aconselhando o povo a seguir os mandamentos cristãos com a advertência de que “o fim dos séculos estava próximo”.
Confusão de nomes
Sua figura é confundida com a do segundo João Maria (São João Maria ou João Maria de Jesus) que, no entanto, era outra pessoa. João Maria de Agostini perambulou pelos Campos Gerais, doutrinando pessoas na fé cristã, dando remédios nativos e sendo alvo de miraculosas histórias.
Conta-se que, sob forte tempestade, permaneceu sentado debaixo da uma árvore, em local completamente seco, à luz da pequena fogueira que acendia.
Também teve uma inexplicável passagem do Rio Tibagi por sobre as águas, ante a recusa do canoeiro em transportá-lo.
Tentativa de prisão e profecia
Conta Augusto Waldrigues, na obra “História do Monge João Maria” que, se encontrando o ancião em Ponta Grossa, cercado de pessoas, a autoridade local, instigada por terceiros, determinou sua prisão por agitação. O anacoreta, porém, desapareceu aos olhos dos soldados e do próprio delegado. “Não sou um santo – disse ao povo. Apenas Deus, de quem sou apóstolo dedicado, não quis que mãos profanas tocassem no meu corpo!”
A seguir, profetizou a chuva de granizo que provocou grandes estragos na cidade: “amanhã, quando eu estiver a duas léguas longe de ti, cidade orgulhosa, uma formidável saraiva te destruirá os telhados das casas e te fará abandonar o orgulho, pois os prejuízos que sofrerás serão imensos!”.
Em Guarapuava
Em Guarapuava, fez mais previsões: “doenças desconhecidas atacarão o povo com grande mortandade; nos campos haverá muito pasto e pouco rasto; nas cidades, muitos chapéus e poucas cabeças; a criação irá se acabando e as terras perderão a força e muito pouco alimento fornecerão aos homens”.
O segundo monge
O segundo monge, chamado São João Maria ou João Maria de Jesus, sobreveio ao primeiro (João Maria Agostini). Morreu ou desapareceu por volta de 1908, quando começava a questão do Contestado. Seu nome civil era Anastás Marcaf.
Frei Rogério Neuhaus, que viveu em Curitibanos (SC), afirma que conversou com o homem de cinquenta a sessenta anos, de estatura média, vestido pobre mas decentemente, em dezembro de 1897. Então, perguntou-lhe de onde tirava as palavras que dirigia ao povo e quem lhe dera autorização para fazer isso.
O cenobita respondeu-lhe que as tirava das Sagradas Escrituras, acrescentando: “eu nasci no mar; criei-me em Buenos Aires e faz 11 anos que tive um sonho, percebendo nele claramente que devia caminhar pelo mundo durante 14 anos, sem comer carne nas quartas-feiras, sextas-feiras e sábados, e sem pousar na casa de ninguém. Vi-o claramente”.
Pregador
O coronel-médico Ângelo Dourado, do estado-maior federalista na guerra civil de 1894-95, também conversou com ele: tratava-se de pessoa que caminhava solitária pelos sertões, nada tendo de si e nada pedindo a ninguém; não dormia dentro das casas e só aceitava alimentos frugais em pequena quantidade. Suas pregações calmas e humildes eram ouvidas por todos, que o respeitavam e estimavam. Nunca dizia para onde ia, nem quando. Atravessava rios transbordando, sem canoas, e ninguém sabia dizer como havia passado.
Conselhos
Levava uma bandeira branca com uma pomba vermelha no centro. E José Cleto da Silva, político e escritor, encontrou-o no ano de 1896: “ele aconselha os sertanejos; não gosta de ser acompanhado por grupos; carrega a tiracolo um saco de algodão e, dentro dele, uma barraca pequena e uma panelinha; traz consigo um crucifixo e outras pequenas imagens. Pousa à beira de caminhos e não aceita dinheiro: contenta-se quando lhe oferecem alguma verdura, um pedaço de queijo ou um pouco de leite; aconselha a que o povo tenha bastante crença em Deus e trabalhe muito para se desviar das más intenções”.
Lembrança sagrada
Antônio Lustosa de Oliveira, deputado guarapuavano, conta que João Maria acampava nas proximidades da Fazenda São Pedro, de sua família, e que, numa de suas últimas aparições, sua mãe Rosa, notando que o poncho do peregrino estava velho, com rasgões, propôs-lhe trocá-lo por um novo, ficando com o antigo. Por 80 anos a família conservou a velha roupa, não obstante pessoas levarem retalhos como lembrança do “santo”.
A origem da foto famosa
A fotografia que ainda pode ser vista nesta publicação e que mostra o eremita de sandálias de couro cru, gorro de pele, em pé ao lado da capelinha, foi tirada em Ponta Grossa, no final do século 19, pelo comerciante Herculano Fonseca.
O terceiro monge
O terceiro monge que deixou marcas na comunidade dos Campos Gerais, foi frei Manoel, o Monge de Tibagi, que viveu por cerca de trinta anos na região.
Segundo o jornal curitibano “Quinze de Novembro”, ele era um frade português que chegara ao Brasil em 1860 e que se estabeleceu primeiramente em São Paulo. Acometido de doença mental, abandonou seus encargos e, anos depois, apareceu em Tibagi, onde o poeta local Octávio de Camargo diz que ele tinha cerca de 30 anos, olhos azuis claros, cabelos louros, vestido modestamente e calçado de alpargatas, conduzindo uma maleta cheia de livros.
O mesmo periódico afirma que, nessa localidade, frei Manoel organizara uma espécie de companhia, chamada palas brancos que se reunia para rezar o terço e para desenvolver outras atividades que suscitaram a intervenção policial.
Escondido, perambulava seminu pelos campos, vivendo da caridade daqueles que acreditavam nas beberagens que receitava, o monge, por fim, radicou-se num rancho de propriedade de Thomé Gonçalves Delgado, no lugar chamado Povo. Acolitado pelo dono do imóvel e, embora paralisado das duas pernas, atraía romeiros de todas as partes e comercializava uma litografia que o mostrava com cabelos longos, barbudo, com grandes unhas nas mãos e nos pés, sentado no centro de uma choupana coberta com varas.
Garrafinhas sagradas
A ele eram atribuídos milagres e Thomé Delgado, com visão comercial, vendia garrafinhas vazias aos peregrinos que ali colocavam água distribuída pelo eremita, bem como saquinhos de pano com cinzas do fogo que ardia no interior do casebre.
Thomé, ainda, era quem organizava as entrevistas individuais com frei Manoel que, no entanto, recusava-se a receber certas pessoas a quem considerava pecadoras e que, por isso, deveriam esperar horas ou dias até que se purificassem. A filha do dono da terra era quem trazia água de uma fonte desconhecida a fim de encher uma bilha, cujo líquido era depois distribuído aos fiéis.
Exploração
Indignado com o que afirmava ser exploração da credulidade pública e com o estado do monge, a quem considerava louco, o “Quinze de Novembro” passou a pedir providências urgentes das autoridades, sugerindo a remoção de Manoel para um asilo.
– De se recordar, também, que, pouco antes, em 1889, o frei português foi processado por curandeirismo, cujo Promotor do caso foi João Baptista Lustosa Ribas, irmão do Comendador Augusto Ribas.
No dia 18 de julho de 1892, o Monge de Tibagi faleceu: cerca de quatro mil pessoas acompanharam o féretro. Em sua lápide foi escrito: “aqui jaz o homem penitente destituído das vaidades do mundo”.
*Este texto foi publicado originalmente na edição impressa do Diário dos Campos, na coluna “Memória Viva”
**O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.