
José Pedro da Silva Carvalho, português de Vila Nova do Famalicão, assentou raízes em Ponta Grossa ainda antes da criação da Província, porquanto, em 1840, foi que fundou o histórico estabelecimento comercial de secos e molhados, “Casa Juca Pedro”, considerado à época um dos maiores empórios do interior paranaense. Casado com d. Maria da Conceição Branco, filha de um dos primeiros líderes da cidade – tenente Antonio José Pereira Branco, seu patronímico foi emprestado a um dos bairros mais populosos da cidade, o Jardim Carvalho, que era a sede de sua fazenda.
Entre os membros de sua prole (10 filhos!), encontra-se Manoel Pedro da Silva Carvalho, estudante do 4º ano de medicina no Rio de Janeiro que, em 1884, foi vítima de nefando crime de homicídio. O jornal “Dezenove de Dezembro”, do dia 16 de maio, é que faz referência ao fato. Dois índios guaranis, pai e filho, trabalhadores na fazenda de Juca Pedro, inconformados por haverem sido despedidos, articularam a trama para assassinar o dono da estância.
Não o conseguindo, resolveram vingar-se na pessoa de seu filho que, ocasionalmente, encontrava-se na casa paterna. Para tanto, surpreenderam-no num recanto do imóvel, estrangularam-no e esconderam seu cadáver, em pé, na barranca de um rio próximo: “jovem de 22 anos, vindo da Corte visitar sua família, onde há 8 anos estudava no intuito de formar-se, tinha ido à fazenda divertir-se para logo voltar aos estudos e quando para isso se preparava, tornou-se vítima predestinada a saciar a sede de vingança desses homens sanguinários…”.
Presos os autores na cadeia pública, dali mesmo continuaram a ameaçar os familiares de seu ex-patrão, acoroçoados por alguns indivíduos que lhes prometiam proteção. Porém, submetidos a júri popular, não lograram escapar pois que receberam pesada condenação.
O filho mais velho do abastado comerciante, de nome Antônio Pedro da Silva Carvalho, dotado de verve literária e também residente no Rio de Janeiro, foi quem escreveu uma das mais belas crônicas sobre Ponta Grossa, a qual veio a ser estampada em importantes publicações do início do século 20. Ausente do torrão natal há muitos anos, ao retornar, encontrou quase tudo modificado, o que o levou a invocar costumes e imagens da criancice que, a seu ver, teriam sido diluídos pela marcha dos tempos.
Na verdadeira ode que escreve, deixou um saboroso relato da vida princesina nos tempos heroicos e poeirentos da Freguesia, quando volta para os Campos Gerais e constata que a grande maioria das coisas e acontecimentos que docemente povoavam sua lembrança, não mais existiam, cedendo lugar a novas invenções determinadas pelo progresso e pela assimilação de costumes exóticos trazidos por outros povos.
Onde estava, por exemplo, a velha igreja, “singela e sem torres, levantando para o céu o frontispício nu, sem arquitetura nem arte, mas que tinha um não sei que de venerando na sua massa tosca?” Ela era o símbolo da religiosidade do povo alegre e sem luxo que, nas procissões, com banda de música e foguetório, dela retirava o painel da padroeira desenhado por João Chagas, vigiando atentamente o lado para o qual se voltaria a estampa da Senhora Sant’Ana que, do topo do mastro e no primeiro vento, indicava a casa do futuro festeiro… Depois, vinha a missa solene, com o maestro Camargo regendo a música e os mais velhos, com balandraus vermelhos, caprichando no latim em resposta às invocações do sacerdote.
Em lugar da “cidade acocorada no cimo de um morro, alvejando a casaria baixa que o sol incisava com a sua luz fulgurante”, o tímido perímetro urbano foi alargado com novas ruas e imponentes sobrados substituíram “as primeiras edificações portuguesas”.
E as festas profanas que se realizavam no pátio fronteiro da Matriz? Onde estavam? As cavalhadas em que mouros e cristãos, vestidos de cores fortes e de aparência bizarra, demonstravam perícia no combate e no manejo de seus fogosos corcéis… Onde se ocultara o jogo galante do aro de ouro, no qual cavaleiros passavam por baixo de um arco que mantinha suspensa a pequena argola: o que fosse mais rápido e certeiro, colhia esse objeto na ponta da lança, entregando-o depois à dama de sua simpatia…
Já “os escravos e os plebeus brancos”, preferiam outras diversões: as congadas, os batuques e os desafios, onde era preciso ser exímio na execução da viola, ajuntando a isso, veia poética e agilidade mental.
Malgrado essas ausências que o cronista constata, a civilização, com toda a sua força avassaladora, “não conseguira apagar na alma das pessoas, o encanto primitivo das impressões que as emocionaram na infância, nem lhes subtraíra os sítios onde elas acariciaram os primeiros idílios, sentiram a volúpia do primeiro beijo ou o dissabor da primeira desilusão”. Antônio Pedro Silva Carvalho queria voltar “à adolescência, rever a terra naquela rusticidade gentil, ignorada do mundo, com vestidos de camponesa e ingenuidade de virgem”. No entanto, o tempo passou e as transformações se impuseram.
Mas a “cidade campesina”, um século e meio depois, ainda é aquela moça corada que enfeita os cabelos com flor de laranjeira e que se debruça à janela dos casarões da memória, esperando a recompensa do olhar furtivo e das lânguidas serenatas.
Josué Corrêa Fernandes é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
