
A Igreja Católica nos Campos Gerais, fixou-se há trezentos anos, com a vinda dos jesuítas da Casa de Paranaguá e a consequente construção da capela de Santa Bárbara no vasto imóvel do Pitangui (1727). Os primeiros povoadores professavam essa fé.
Uma oração escrita em 1764
Domingos Martins Fraga, português de Fralães, possuidor das sesmarias onde hoje se encontra a cidade de Ponta Grossa, é exemplo disso: um pouco antes de falecer, em 1764, ele escreve em suas declarações de última vontade: “encomendo a minha alma à Santíssima Trindade que a criou; rogo ao Eterno Pai que, pela morte de seu Unigenito Filho, a queira receber… E à Virgem Maria Senhora Nossa, … São Miguel Arcanjo e todos os mais Santos e Anjos….. sejam meus defensores quando a minha alma deste mundo partir… Como verdadeiro cristão, protesto viver e morrer nesta Santa Fé Católica…”.
Oratórios na região
Seus sucessores continuaram firmes nesse caminho, abrindo oratórios em suas estâncias, construindo a capela Casa de Telhas e o templo de Nossa Senhora Sant’Ana. Alguns padres, como José Pereira da Fonseca, primeiro pároco e Anacleto Dias Batista vigário por 50 anos, pavimentaram o caminho, prepararam os fiéis na organização da fé, estabelecendo os primeiros alicerces da hierarquia que, no final do século 19, encontrava-se subordinada ao Bispo Diocesano de São Paulo.
A propósito, no mês de abril de 1882, Ponta Grossa que subira todos os patamares importantes de sua vida administrativa, também recebia a visita pastoral de seu primeiro prelado, o paulista dom Lino Deodato Rodrigues de Carvalho.
Diocese de Curitiba
Mais um pouco à frente, no final do século 19, foi criada a Diocese de Curitiba à qual passou a pertencer à Igreja local. Mas a cidade continuava a crescer e a suscitar outras conquistas que fizessem jus ao seu progresso. Aos poucos, tomou corpo a ideia da criação de um Bispado na cidade polo dos Campos Gerais. E isso veio a acontecer no dia 10/05/1926, mediante Bula emitida pelo Papa Pio XI.
Dom Antônio Mazzarotto
Dom Antonio Mazzarotto foi o escolhido para gerir os destinos da nova diocese mediante ato do Sumo Pontífice, firmado em dezembro de 1929 e sua sagração aconteceu em Roma no dia 23/02/1930. Em 3 de maio deste último ano, Ponta Grossa assistiu à sua posse solene que contou com a participação da comunidade regional. Estima-se que cinco mil pessoas se fizeram presentes.
Sacerdote de vastos conhecimentos, latinista emérito, o primeiro bispo era paranaense, nascido em Santa Felicidade. A ele, a Santa Sé confiara uma diocese que abrangia boa parte do território do Estado, cujo atendimento exigiria esforços incomuns seja pela considerável extensão e distância, seja pela precariedade das vias de acesso que então existiam.
Diocese de Ponta Grossa
A nova diocese confiada a dom Antônio Mazzarotto, abrangia não apenas o território dos Campos Gerais, mas também as regiões sul, oeste e sudoeste do Estado, distribuindo-se em vários municípios e paróquias, que somavam quase 57.000 km2. Não obstante a sua extensão (quase ¼ do tamanho do Paraná) e as longas distâncias a serem percorridas, dom Mazzarotto lançou-se com vontade e persistência no trabalho pastoral de levar a mensagem evangélica a todos os recantos.
Viagens de carroça
Nos primeiros anos da década de 1930, sua jurisdição ia até Palmas na condição de administrador apostólico da prelazia que ali fora criada em 1958. Os meios de transporte que utilizava nessas longas viagens eram os únicos disponíveis da época. Os mais confortáveis deles eram as carroças ou charretes que o levaram, inclusive, até à comunidade de Campo Mourão, vinculada à paróquia de Guarapuava.
O jeep Willys
No entanto, em vários percursos utilizou-se de montarias ou ainda, fê-los a pé. Somente trinta anos depois de assumir a diocese é que passou a se utilizar de veículo automotor, um jeep Willys, que tornavam mais expeditas as suas visitas apostólicas. Conta-se que a viagem pastoral mais demorada foi a que fez à paróquia de Guarapuava, que durou quase dois meses em virtude da abrangência da região.
Apesar desses tempos de grande dificuldade, dom Antônio não descurou de estudos e pesquisas teológicas que o levaram a emitir várias Cartas Pastorais, iniciando pelo “Reino de Cristo” datada de 1930 até “Obras da Palavra e do Silêncio” (1965).
Um modelo descrito pela Diocese
Na página da Internet alusiva à Diocese de Ponta Grossa, é apresentada a síntese do que foi a vida do eminente líder religioso: “traduzindo na sua vida e ação pastoral o lema de seu brasão de armas “Adveniat Regnum tuum”, D. Antônio esmerou-se antes de tudo em ser o modelo do rebanho a si confiado, para depois evangelizá-lo através de palavras e atos…
A sua piedade eucarística a todos encantava e servia de exemplo. A preparação para a Santa Missa e a ação de graças após o sacrifício eucarístico, marcavam a sua presença no seio da comunidade cujas celebrações presidia. O rosário de Nossa Senhora estava constantemente em suas mãos. A devoção a São José mereceu de sua parte um carinho especial; levado por esta devoção, deu o nome de São José ao Seminário Diocesano, denominou de Colégio Josefino o então Instituto Assistencial São José (hoje sub-sede do Colégio Sagrada Família)”.
Por trinta e cinco anos esteve à frente da Diocese, auxiliado, por último, pelo bispo dom Geraldo Micheletto Pellanda que, após sua morte ocorrida em 15/07/1980, veio a sucedê-lo.
*O autor é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.