Diário de tropeiro narra viagem de PG a Santa Cruz em 1891


Por diagramacao

Afirmam os pesquisadores que o tropeirismo, iniciado no século 17, só veio a ser extinto no final dos anos 1800 ou início de 1900. Isso ocorreu por consequência da abertura de estradas de rodagem e da ampliação da malha ferroviária. Na região de Ponta Grossa (PR), essa atividade econômica e comercial possuía muitos adeptos. Entre eles estava Reinaldo Silveira Loureiro, pai do poeta e historiador Ribas Silveira. Numa de suas jornadas, Reinaldo Silveira deixou um minudente relatório. O diário de tropeiro narra o passo a passo da longa viagem de Ponta Grossa a Cruz Alta (RS), de onde trouxe mais de 500 bestas para revenda.

Detalhes do Diário de Tropeiro

Começou a escrever em maio de 1891 e a sua partida, acompanhada de camaradas, aconteceu no dia 27 de julho do mesmo ano. Foi, talvez, uma de suas últimas tropeadas. Homem organizado, de certa cultura, registrou todos os detalhes da viagem a cavalo e das despesas feitas no correr do percurso. Quem vai vender-lhe a tropa é seu irmão Sezefredo, de Cruz Alta, ao qual remete antecipadamente a quantia de cinco contos de réis a título de sinal do negócio. A caravana que sai de Ponta Grossa e se dirige ao extremo sul, consumirá quase quatro meses entre a ida e o retorno.

Os mantimentos

Por isso o grupo é provido de utensílios domésticos como chaleiras, caldeirões, pratos, bacias, bules, velas, ferramentas, tecidos para barracas. Além disso, havia víveres suficientes para a manutenção de todos: 15 quilos de café, 12 de açúcar mascavo, 15 de toucinho, mais farinha de mandioca, arroz, sal, charque, feijão, erva-mate, uma botija de genebra.

O empréstimo

Como a compra de muares exigisse pagamento à vista e o montante final fosse elevado, Reinaldo faz dois empréstimos de dinheiro de Antônio Antunes Coelho. Esse era um ponta-grossense de apreciável capital amoedado. Forneceu seis contos para pagamento em janeiro/1892 a juros de 10% ao ano (!) e mais outro tanto, nas mesmas bases, vencível no “dia de Sant’Ana” do mesmo ano.

A partida

A partida dos oito componentes da comitiva e dos dezessete animais, acontece sem percalços. Saem desta cidade e madrugam na balsa de Conchas; passam o Tibagi e depois se dirigem ao Oeste. No outro dia, chegam no Cupim (Imbituva), passam por Monjolinho (Guamiranga). A 1º/08, atingem a barreira do Rio dos Patos, em Prudentópolis, onde armam acampamento até dia subsequente. Finalmente, percorrem quatro léguas para estacionar no Relógio, aos pés da Serra da Esperança, onde se reabastecem de milho e de charque.

No dia três de agosto, diz o Diário de Tropeiro, sobem os estreitos caminhos da Serra e, à tarde, penetram nos campos guarapuavanos, encaminhando-se, lestos, para as bandas do Sudoeste. Em 7/8/1891, transposto por balsa o Rio Jordão, a caravana chega às margens Rio Iguaçu onde o preço da passagem de animais e de pessoas mostra-se bem elevado.

12 mil réis

Transposto o Rio Iguaçu alguns quilômetros antes do Salto Santiago, o grupo passou o Chopim para depois alcançar Palmas, Chapecó, “Xanxerê Tigre” e o passo do Goio-En, onde foi gasta a quantia de doze mil réis para varar o rio e para comprar açúcar, farinha e a ração de milho para os animais.

O Paraná que virou Santa Catarina

Até aqui, o séquito palmilhava território paranaense que, anos depois, inseriu-se na célebre questão do Contestado entre o Paraná e Santa Catarina, passando, daí, ao domínio deste último Estado, mercê do deplorável acordo assinado pelo governador Affonso Alves de Camargo e o mandatário barriga-verde: nosso Estado foi amputado em quase 30.000 km2!

Ninho de Pica-paus

Finalmente, em 15/8, Reinaldo e seus agregados chegaram em terras rio-grandenses, no lugar “Nonohay – Papudo”. Nos outros três dias, as paradas foram em Sarandi, Turvo e Rio da Várzea. O próximo ponto de parada foi Cruz Alta, apelidada  de “Ninho de Pica-paus” por causa de haver aderido aos florianistas e castilhistas na Revolução Federalista que estourou dois anos depois.

Terra Natal de guerreiros

O valente cortejo de tropeiros, chegou ali em 20/08/1891. Oportuno lembrar que essa cidade do planalto médio gaúcho, possuía muitas ligações, não apenas com o líder dos tropeiros, mas também com Ponta Grossa. Reinaldo era natural daquelas paragens onde também nasceu a sua irmandade composta de dezoito membros, onze homens e sete mulheres. Na guerra civil entre maragatos e pica-paus, vários irmãos de Reinaldo morreram na cruenta batalha que se feriu às portas de Cruz Alta e que vitimou outras dezenas de patrícios, separados por ideais políticos antagônicos.

550 animais e 33 contos de réis

Mas é nessa cidade que se efetivou a aquisição da numerosa tropa que, em seguida, foi trazida para Ponta Grossa: são quinhentas e cinquenta bestas adquiridas do irmão de Reinaldo, de nome Sezefredo (um dos que, mais adiante, morrerá na Batalha de Cruz Alta). A transação atingiu elevados trinta e três contos de réis). Fechado o negócio, os muares foram colocados numa invernada especial, enquanto começavam os preparativos para a viagem de volta.

Gastos e prejuízos

Além desse desembolso, o líder da comitiva teve que comprar víveres e pagar salários:  6 cargas de sal, feijão, farinha de mandioca, arroz, toucinho, charque, café, açúcar, ovos, milho, uma vaca para carnear mais o prejuízo de cinquenta mil réis pela perda de uma égua-madrinha. No caminho da volta, a comitiva chegou em Dois Irmãos, depois em Carazinho e dia 23/09, em Passo Fundo.

Animais afogados

Depois de vadear o Rio Forquilha, onde foram se afogaram dois animais – um baio e um tordilho, a caravana chegou ao Lageado dos Mendes e se preparou para cruzar o Rio Pelotas. Nessa oportunidade, ocorreu o extravio de diversas bestas, inclusive com a morte de cinco delas. Face a essas perdas, os prejuízos foram se acumulando. O grupo, porém, prosseguiu viagem por Campos Novos, Pelotas, Marombinhas, Xaxim, Canoinhas, Papanduva e, por fim, no dia 12/11/1891, alcançou o território paranaense na localidade de Rio Negro.

Invocação de Virgem Maria

Reinaldo Silveira Loureiro, com traços firmes, faz o registro diário da jornada de retorno que aconteceu debaixo de muita chuva, com os rios cheios e ainda com a perda de outros animais:

“… fiquei falhando o dia 8 de novembro de 1891, no qual invoquei a Santíssima Virgem Maria, pedindo bom tempo para poder continuar a viagem. A manhã do dia 9 não chovia e o tempo tornou-se claro… Por volta das 9 horas seguimos viagem com toda a comitiva, tendo de fazer concertos em estivas e aterrados estragados pela enchente, atravessando os morros terríveis do Passa Quatro e cujo percurso estava atolando nas chapadas, com lamaçais que chegavam, em alguns lugares, a alcançar a barriga dos animais… No Rio Negro, tomei todas as providências para a passagem na manhã seguinte. De madrugada seguimos viagem, chegando com a tropa às 7 horas à beira do Rio Negro para efetuar a passagem, que realizei até às 10 e ½ horas. Segui viagem e vim atravessar o Rio da Varja (Várzea), pousando no Passo do França. A 15 – atravessei a cidade da Lapa e vim pousar nas restingas distantes da Lapa duas léguas. 16 – atravessei o Rio Iguaçu no porto junto à Ponte de Ferro”. São as palavras de Reinaldo, no Diário de Tropeiro.

Chegada a Ponta Grossa

Após o pernoite próximo ao último local, a comitiva chegou até  a Restinga Seca, Palmeira e, por fim, na invernada que abrigaria a tropa e que ficava na “costa do Tibagi”. Dia 19/11, depois de dar sal aos animais, os tropeiros aportaram em Ponta Grossa no cair da noite.

As anotações do tropeiro-escritor são minudentes. Fazem referência a acidentes geográficos, a nomes de lugares e de pessoas. É o relato da luta ingente para trazer a tropa de mais de 500 bestas até Ponta Grossa. Demonstra como era o dia-a-dia dos homens que se dedicavam a essas atividades e que não desanimavam ao ter pela frente centenas de quilômetros para percorrer em lombo de cavalo, com alimentação precária, sujeitos a intempéries de toda a espécie.

Surgimento de cidades

Esse ir e vir de tropeiros não serviu apenas como instrumento de exploração de uma atividade econômica. Foi mais longe que isso: riscou estradas nos mapas do país, interligou regiões e fez brotar cidades nas antigas rotas e pousos, como é o caso específico de Ponta Grossa.

*Texto publicado originalmente no jornal impresso Diário dos Campos

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