
Mauro Bianchi Bueno, cirurgião e psiquiatra, filho de antiga família, nasceu em Ponta Grossa no mês de abril de 1959. Logo no início de sua carreira profissional, optou por trabalhar na organização Médicos sem Fronteiras e no Comitê Norueguês para o Afeganistão, certo que, nesta última instituição, dirigiu missões em Badakchan, Bamyan e Kabul (1989/1991). Anteriormente, estivera à frente da coordenação médica da Ação Internacional contra a Fome na guerra civil da Libéria (1992) e também do Comitê Internacional da Cruz Vermelha por ocasião do genocídio ocorrido no Burundi (1994).
Sua permanência e suas experiências no Afeganistão, ele as conta no livro “Afeganistão – a guerra em nome de Allah”, editado em 2002, pela Ícone Editora. Trata-se da história romanceada do período em que o país, com mais de cinco mil anos de existência, ficou debaixo do poder soviético que, pela força, ali instalou um regime marxista que culminou em violenta guerra civil, envolvendo países como o Irã e o Paquistão.
Os personagens principais dessa obra, são jovens afegãos, fiéis ao islamismo, que habitam as montanhas do país e que, sem maiores horizontes, subordinam-se à velha ordem patriarcal, criando ovelhas e zelando das plantações de trigo, enquanto, à sua volta, desenrolam-se questões políticas e revolucionárias.
Usos e costumes, casamentos, mortes, alimentação, dúvidas e indagações filosóficas, são descritas por Mauro, também chamado de Mohammad Thabib pelos moujahedeens. Nesse vasto território que, em milênios, jamais foi dominado por potências estrangeiras, o romance reafirma o espírito de luta e bravura do povo que nem Alexandre, o Grande e Gengis Khan lograram comandar.
Mohammad, com vinte anos, é presença contínua no livro, principalmente pelas indagações que faz a respeito da vida que ele e sua família levam. Nas andanças solitárias pelas colinas geladas, secundado pelas duas ovelhas Safid e Siá, ele se lança na aventura de investigar o sentido das coisas que o rodeiam.
Conta Bueno que começou a fazer as anotações, que depois deram origem ao livro, como uma forma de resistir à solidão nas extensas noites geladas que passou nas montanhas e desertos do Afeganistão.
Quando fui presidente da Academia de Letras dos Campos Gerais, essa obra e seu autor foram homenageados em ocasião especial, não apenas pelo contexto do romance mas também pelo louvável trabalho humanitário de Mauro que, falecido em 2002, não viveu para assistir à retirada da União Soviética e à longa presença dos EUA na região que, como outros conquistadores, também se obrigou a sair do palco da luta.
O autor da coluna Memória Viva é um dos fundadores da Academia de Letras dos Campos Gerais, advogado, e foi juiz, vereador e prefeito da cidade de Prudentópolis, de onde é natural. Entusiasta da História, é autor de diversos livros, incluindo “Das Colinas do Pitangui…” e “Corina Portugal: História de Sangue e Luz”.
