Jogo de palavras da infância se transforma em hábito na vida adulta


Por Redação Diário dos Campos
ChatGPT Image 1_02_2026, 17_55_20

Imagem ilustrativa gerada por IA

ChatGPT Image 1_02_2026, 17_55_20
Imagem ilustrativa gerada por IA

O texto é uma crônica de caráter memorialístico que transforma uma brincadeira infantil em elemento central da narrativa. Nele, a autora relata o jogo de palavras proparoxítonas praticado com a mãe antes de dormir, em que ambas se desafiavam a dizer, alternadamente, vocábulos acentuados na antepenúltima sílaba, até que uma fosse vencida pelo sono.

Na vida adulta, a atividade deixa de ser apenas um passatempo e passa a funcionar como um ritual pessoal de relaxamento, utilizado para aquietar a mente ao final do dia. Leia:

Proparoxítonas

No finalzinho da tarde, quando começam a silenciar os ruídos da rua, o tilintar de louças e talheres na cozinha, a tranquilidade se apresenta e é nesse momento que gosto de relaxar corpo e mente. 

Aconchego-me a uma rede, fecho os olhos e entrego-me à paz reinante. Inicia-se, então, o meu relaxamento, o qual, já me disseram, é um tanto esquisito. Descanso buscando na memória, aleatoriamente, somente palavras proparoxítonas, todas as que lembro.

Criei esse hábito desde a infância. Morávamos numa casa de madeira rodeada de flores e verduras no lado ímpar da Rua Júlia Lopes, na tranquila Órfãs, em Ponta Grossa.

Meu quarto era contíguo ao dos meus pais. Após o jantar, quando to-dos já estavam recolhidos, escuridão total, minha mãe e eu rompíamos o silêncio da noite. Apesar da parede que nos separava, o som de nossas vozes alcançava uma e outra e começava o jogo de palavras proparoxítonas ditas alternadamente.

Nenhuma queria desistir e encontrávamos palavras do arco-da-velha para não perder aquele jogo: médico, pêssego, cólica, lágrima, dívida, hálito, matemática, abóbora, vírgula, palavras do nosso cotidiano, até que uma das duas era vencida pelo sono, a brincadeira se encerrava e ouvia-se somente o ressonar do meu pai.

Leitora contumaz, minha mãe lia o que quer que fosse e, como diz o provérbio latino, “as palavras movem e o exemplo arrasta”. Através das leituras nosso vocabulário foi crescendo e já desfilavam na brincadeira vocábulos mais sofisticados, pouco usuais como sôfrego, elíptico, lânguida, píncaro, cósmico, arquétipo, artrópode, insólito, trôpego, sândalo, mármore, flâmula, plácida, uníssono, calêndula, efêmero, diagnóstico…

A mentora desta e de outras incríveis brincadeiras se foi. A casa onde vivíamos, agora vazia, foi invadida por estranhos que furtaram a fiação elétrica, tomadas e interruptores, danificando paredes e teto. Não satisfeitos, voltaram uma segunda vez e arrancaram todos os metais.

ão sobrou nada intacto, tudo foi destruído por esses seres estúpidos. Ao ver aquela cena dantesca minha indignação e repulsa explodiram em proparoxítonas: vândalos, crápulas, bárbaros, toxicômanos… A casa ficou oca, quase demolida.

O número 633, em bronze, também interessou aos patifes. Com as experiências vividas muitas palavras se juntaram às já dominadas e a rede não tem ciência que embala centenas de proparoxítonas que habitam em mim enquanto relaxo no finalzinho da tarde. Não é mais um jogo, é um prazeroso e relaxante vício. Quiçá esquisito.

Leia também: Fã com síndromes genéticas raras realiza sonho ao conhecer Gian & Giovani

Texto de autoria de Sueli Maria Buss Fernandes, professora aposentada, residente em Ponta Grossa, escrito no âmbito do projeto Crônicas dos Campos Gerais da Academia de Letras dos Campos Gerais (https://cronicascamposgerais.blogspot.com/).

Sair da versão mobile