Dia desses, conversando sobre as festas de final de ano, surgiu uma pergunta que ficou ecoando:
O que você faria se, no dia 31 de dezembro, às 23h45, lhe fosse entregue um livro com 365 folhas em branco para escrever a sua história, sozinho, sem ajuda de ninguém?
A resposta foi simples e precisa: devolveria o livro. Sozinho, a história perderia o sentido.
Essa resposta revela algo fundamental sobre a condição humana. A psicanálise nos ensina que ninguém escreve a própria vida a partir do zero. Não somos autores absolutos da nossa história, nem sujeitos totalmente conscientes de nossas escolhas. Somos atravessados por palavras, gestos, expectativas, silêncios e ausências que vieram antes de nós. Freud mostrou que a vida adulta carrega marcas da infância; Lacan aprofundou essa ideia ao afirmar que o sujeito se constitui na relação com o outro, na linguagem e no laço social.
A cada novo ano, gostamos de imaginar que recebemos uma folha em branco, como se fosse possível recomeçar sem passado. Mas a verdade é que essa folha nunca está totalmente vazia. Há rastros, repetições, histórias que insistem em continuar sendo escritas, mesmo quando acreditamos iniciar algo novo. O inconsciente não respeita calendários. Ele reaparece nos mesmos medos, nos mesmos conflitos, nos mesmos modos de amar, de se defender e de sofrer.
Na nossa história de vida, precisamos de personagens. Não andamos sozinhos. Somos feitos de encontros e desencontros, de caminhos que se cruzam, se afastam e, por vezes, se reencontram. Há percursos mais suaves, outros mais íngremes, e o essencial não é controlar cada passo, mas sustentar o movimento. Cada sujeito caminha de um jeito, porque ninguém é igual ao outro, ainda que compartilhemos dores e alegrias semelhantes.
Somos um pouco da vida de nossos pais e avós, dos amigos, irmãos, filhos, netos. Nossas histórias estão interligadas. É por isso que sentimos empatia pelos problemas do outro, pelas perdas, pelos medos e também pelas pequenas vitórias. Quando algo nos toca na história alheia, não é por acaso: há sempre algo nosso que responde, algo que reconhece.
Um novo ano, por si só, não garante mudanças. O que pode mudar é a forma como nos implicamos naquilo que vivemos. Muitas vezes, repetimos sem saber. Escolhemos caminhos conhecidos, mesmo quando nos fazem sofrer, porque há algo neles que nos é familiar. A psicanálise chama atenção justamente para esse ponto: não andamos porque existe um caminho pronto; é andando, e se implicando, que o caminho se constrói.
A vida não é uma linha reta. Ela é feita de acontecimentos, desvios, interrupções e retomadas. Há capítulos difíceis, páginas que preferimos não reler, e outras que insistem em voltar. Ao longo do tempo, algumas páginas se escrevem quase sozinhas; outras exigem coragem para serem encaradas. Nem sempre podemos escolher o que nos acontece, mas podemos, aos poucos, nos responsabilizar pela forma como seguimos contando a nossa própria história.
Talvez o convite de um novo ano não seja escrever uma história perfeita, nem apagar o que ficou para trás. Talvez seja algo mais simples, e mais difícil: perceber o que seguimos repetindo, o que nos move sem que saibamos e o que ainda pede palavra.
Que este ano que está nascendo sirva para isso: para olhar com mais cuidado para o que nos habita, para o que retorna, insiste e atravessa a vida cotidiana. Quando algo do que lemos aqui toca, incomoda ou faz pensar, talvez já tenha cumprido sua função. Porque, no fim, ninguém escreve a própria história sozinho, mas é preciso estar disposto a escutá-la.
A autora é psicólogoa. Este texto é um trecho do livro “Lições Preciosas”. (eliprado.elianeprado@gmail.com)