09 de julho de 2026

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Quando o medo sussurra


Por Eliane Prado Publicado 18/01/2026 às 14h00
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Imagem mostra um Iceberg, tendo no topo uma pessoa, e no gelo submerso os diversos medos que a compõem
Imagem ilustrativa gerada por IA

Todo mundo conhece alguns dos próprios medos. O medo de perder alguém, de falhar, de não ser amado. Mas existem outros que quase não sabemos explicar. Eles aparecem como um aperto no peito, um cansaço sem motivo, uma ansiedade que não sabemos de onde vem. Às vezes, surgem no silêncio da madrugada ou num sonho estranho que deixa a gente inquieto o dia inteiro.

Há mais de 100 anos, Freud já chamava atenção para esse lado escondido da nossa vida: para ele, a parte de nós que “sabemos”, a consciência, é só a ponta do iceberg. Debaixo dela existe um mundo muito maior, cheio de lembranças, desejos, medos e conflitos que continuam vivos dentro da gente, mesmo quando não pensamos neles.

Sabe esse medo que a gente carrega sem perceber? Freud percebeu que muitos dos nossos medos não são conscientes. Eles vêm de coisas que tentamos esquecer, ou que nunca entendemos direito. Ele chamou isso de “repressão”: quando empurramos algo para longe da consciência porque nos incomoda, dói ou assusta. Mas o que é reprimido não desaparece. Ele apenas muda de forma. E volta a aparecer no corpo, no humor, no sono, no comportamento, como um medo difuso que não sabemos explicar. É o que Freud chamava de retorno do recalcado: aquilo que não queremos ver volta a bater à porta.

Mas… por que o medo insiste? Porque o medo, para Freud, é um sinal. Ele aponta para algum conflito interno que ainda está ativo. Talvez algo antigo, talvez algo nunca dito. O medo nos empurra para olhar para dentro, apesar de ser justamente isso que tentamos evitar. Ele não é nosso inimigo: é um mensageiro.

O medo divide a gente por dentro. Freud fez uma descoberta surpreendente: não é só o que está escondido que nos causa medo. Às vezes, a própria parte que achamos conhecer — o nosso “eu”, o ego — tem pedaços inconscientes. Pequenas partes que funcionam sozinhas, sem que a gente perceba. Por isso, vivemos situações que parecem contraditórias: querer e temer ao mesmo tempo, amar e duvidar, avançar e recuar, rir enquanto algo pesa no fundo do peito. Para Freud, isso não é sinal de loucura. É sinal de que o psiquismo não é uma peça única; ele tem camadas, vozes, conflitos.

O medo fala. Mas de um jeito difícil de entender. Para que o medo se torne consciente, ele precisa se transformar em algo que possamos perceber: uma imagem, uma sensação ou, principalmente, uma palavra. É como se colocássemos luz em algo que estava no escuro. Quando conseguimos dizer “estou com medo disso”, começamos a entender. Mas quando não conseguimos nomear, o medo tenta outras saídas: um sonho perturbador, uma dor que não passa, um comportamento repetido, uma ansiedade que aparece do nada. É o psiquismo dizendo: “Isso precisa ser ouvido.”

Freud nunca foi tão atual. Em tempos de pressa, produtividade e excesso de estímulos, escutar nossos medos parece um luxo — mas talvez seja uma necessidade básica. Freud não nos ensinou a eliminar o medo. Ensinou-nos a interpretá-lo. Talvez seja essa a beleza difícil da psicanálise: ela não promete uma vida sem angústias, mas uma vida em que nossas angústias deixam de ser inimigas invisíveis. Porque, quando o medo ganha nome, ele perde parte do seu poder. E quando deixamos de fugir dele, começamos, finalmente, a nos encontrar.

A autora é escritora, pedagoga e psicóloga ([email protected])

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