Ponta Grossa: a cidade que não tomba, mas demole!


Por Redação Diário dos Campos
demolição

Imagem ilustrativa gerada por IA

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Ponta Grossa carrega um pacto silencioso, mas velado, com o “esquecimento”. Há uma “melancolia crônica” que ronda e parece vigiar todos os espaços públicos e privados da cidade. Pois, fruto de uma urbe que insiste em encobrir, sublimar e recalcar seu passado a todo e qualquer custo, a máxima local é clara: a cidade não tomba, ela demole. E, recentemente, essa engrenagem de apagamento ganhou um novo capítulo na tribuna pública, quando diferentes políticos locais e o próprio bispo, na tribuna da Câmara, se pronunciaram contra o tombamento de templos católicos históricos sob o pretexto de que “a Diocese não quer”.

No entanto, esse recalque tem um preço: o do retorno do recalcado. E o “fato” de 1978 não está lá distante e “esquecido”, mas sim a sua volta, como um verdadeiro fantasma: a da arbitrariedade da Diocese e a demolição da antiga Catedral de Ponta Grossa, marcas de uma cidade que encobre os jogos de poder e borra qualquer efetividade republicana e política da função pública dos espaços, do patrimônio e da memória. Para recordar: a antiga catedral, inaugurada em 1910 e que teve o projeto assinado pelo italiano Nicolau Ferigotti, teve sua morte consumada e foi riscada do imaginário do ponta-grossense em 1978, com argumentos levianos e sem qualquer pudor, por parte da Diocese, em esconder seu verdadeiro interesse: o da especulação econômica através de uma obra que durou mais de trinta anos, sendo concluída somente em 2009.

Voltando a 2026: o argumento utilizado, que à primeira vista se disfarça de respeito à autonomia institucional por parte dos religiosos e da classe política, revela a anatomia exata de uma moralidade bárbara que há tempos rege nosso espaço urbano.

Quando um “pretenso” representante do povo sobe à tribuna para subordinar a salvaguarda do patrimônio histórico à vontade arbitrária de seu proprietário temporário — seja ele um empresário da construção civil ou uma autoridade eclesiástica —, o conceito de bem comum é sumariamente privatizado. Logo, essas modalidades de “fala pública” se privatizam em defesa de uma política antipolítica, seja da cultura e do patrimônio, como também do bem público em geral; logo, em termos performativos, não deixa de ser a sujeição à lógica corruptora das funções político-institucionais de sua própria “representatividade”.

Deste modo, temos sempre que reiterar: o patrimônio cultural e histórico não pertence ao detentor de sua escritura cartorária! Pertence à memória coletiva, à paisagem afetiva e às futuras gerações que têm o direito de herdar uma cidade com identidade, e não um mero amontoado de lotes comercializáveis e edificações sem expressão alguma. Se a preservação histórica dependesse unicamente do desejo de quem possui o imóvel, a história do mundo já teria sido convertida em estacionamentos e empreendimentos imobiliários de gosto duvidoso. O que está em questão é a alma (psyche) da urbe, sua história e todos os rastros de uma memória que é de todos e para todos; é disso que se trata, e é sobre isso que se exerce a pior das corrupções: o roubo do tempo, como o furto do futuro em detrimento das tentativas de “apagar” pela liquidação e demolição do passado!

É para romper com essa verdadeira “lógica paroquial” que existem órgãos técnicos como o Conselho Municipal de Patrimônio Cultural (COMPAC). O COMPAC não é um intruso; é uma agência pública de preservação e um instrumento democrático de soberania urbana. Suas decisões devem se pautar por critérios históricos, estéticos e arquitetônicos, e não por conveniências políticas ou barganhas clericais. Atacar sua autonomia para blindar os interesses da Diocese é desmantelar a própria estrutura técnica do Estado em favor do privilégio privado.

O que assistimos nesse episódio é a atualização perfeita do “coronelismo” e do seu velho cúmplice, o patrimonialismo, que insiste em não morrer no Paraná. Os espectros dos velhos coronéis, que outrora mandavam e desmandavam nas terras e nas gentes, ainda ecoam com vigor espantoso nas tribunas, na imprensa e, de forma categórica, nos púlpitos. Trata-se de uma simbiose secular: o poder político agindo como braço armado de uma moralidade conservadora que, no fundo, serve apenas de verniz ideológico para a especulação e a gestão pragmática de ativos financeiros.

Igrejas históricas são mais do que templos de feição confessional; são marcos fundacionais da nossa urbanidade, depósitos de técnicas construtivas do passado e testemunhas materiais das contradições que nos formaram. Negar o tombamento sob a alegação de que as restrições legais atrapalhariam reformas ou alienações futuras é confessar que a própria instituição que deveria zelar pela “eternidade” prefere a obsolescência planejada do mercado imobiliário.

Viver em uma cidade que odeia seus próprios fantasmas é um exercício melancólico e cinza. Ponta Grossa prefere a ruína asséptica e o concreto cinzento à complexidade de sua própria história. Mas, enquanto a tribuna e o púlpito se unirem para posar de “vítimas” das artimanhas da preservação e entender esta como um “ataque”, vale sempre refletir sobre o que nos resta de memória. Por fim, caberá à palavra e à resistência técnica o papel de assombrar o sono dos demolidores de plantão.

*O autor é doutor em História pela UFMG

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