O que nos habita


Por Redação Diário dos Campos

Nem sempre sabemos dizer o que nos habita. Seguimos a vida cumprindo tarefas, assumindo papéis, sustentando rotinas, como se fôssemos inteiros e coerentes o tempo todo. Mas basta um silêncio mais longo, um medo inesperado, uma reação exagerada ou um sintoma insistente para perceber: há algo em nós que escapa ao controle e à lógica. Esse algo não surge do nada.

Ele tem história. Somos atravessados por afetos antigos, por experiências que não couberam em palavras, por marcas da infância que continuam operando na vida adulta. O medo que hoje paralisa, a angústia que retorna sem aviso, a repetição de escolhas que machucam, muitas vezes são rastros de algo que não pôde ser elaborado lá atrás.

A psicanálise nos ensina que o ser humano não é transparente para si mesmo. Nem sempre sabemos por que sentimos o que sentimos, por que reagimos como reagimos ou por que insistimos nos mesmos caminhos. O inconsciente não obedece à idade, ao diploma ou à força de vontade. Ele insiste, fala por meio dos sintomas, dos silêncios, dos excessos e das faltas. Esta coluna nasce como um espaço de escuta pela palavra escrita.

Não para explicar demais, nem para oferecer respostas prontas, mas para nomear experiências humanas comuns: o medo, a culpa, a solidão, o desejo, a perda, a dificuldade de se separar, de recomeçar ou de descansar de si mesmo. Quando algo é nomeado, deixa de ser apenas peso, pode se tornar reflexão. Talvez você se reconheça em alguns textos. Talvez algo incomode, toque ou provoque perguntas. Isso já é um movimento importante. Pedir ajuda, falar do que dói ou simplesmente admitir que algo não vai bem não é sinal de fraqueza, é sinal de cuidado consigo. “O que nos habita” é um convite. Um convite a olhar para dentro sem pressa, sem julgamento e sem a exigência de dar conta de tudo sozinho. Porque, muitas vezes, aquilo que mais nos governa é justamente o que nunca teve espaço para ser escutado.

A autora é Escritora e Psicóloga.

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