03 de junho de 2026

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O corpo como palco do sofrimento psíquico


Por Redação Diário dos Campos Publicado 03/06/2026 às 13h49
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Imagem ilustrativa representando sofrimento mental
Foto: Ilustração

Automutilação, distúrbios alimentares, excesso de exposição, hipersexualização, isolamento. Tem horas que a palavra simplesmente falha, e aí o corpo começa a falar por si. Na psicanálise, a adolescência não é só uma fase de mudanças físicas ou uma questão de idade. É uma verdadeira travessia interna ,um período em que cada um precisa deixar certas versões antigas de si mesmo morrer para conseguir inventar um novo jeito de existir no mundo.

Freud via a adolescência como um momento de trabalho psíquico intenso. É aí que muitos conflitos da infância voltam à tona, principalmente aqueles ligados ao famoso Complexo de Édipo. O adolescente já saiu da infância, mas ainda não achou um lugar na vida adulta. Ele vive uma ruptura dolorosa: precisa se desapegar dos pais, do corpo de criança, dos sonhos narcisistas que construiu crescendo.

Esse caminho é cheio de sofrimento. De repente, o adolescente percebe que os pais não são perfeitos, que amor nenhum livra a gente de todas as faltas e que crescer é aceitar limites, perdas, frustrações. Por isso, a adolescência costuma ser marcada por angústias fortes, crises de identidade, vazio que parece não ter fim e conflitos que não se encaixam nas palavras.

Lacan amplia esse olhar. Ele diz que a adolescência é, acima de tudo, o momento de encarar a pergunta: “Quem sou eu diante do desejo do outro?” O adolescente quer reconhecimento o tempo inteiro. Busca pertencer, ser amado, desejado, aceito. É aí que o olhar do outro pesa. Rede social, busca por validação, exposição exagerada ou se fechar em si mesmo tudo isso revela uma tentativa, às vezes desesperada, de sustentar uma imagem própria.

Só que, muitas vezes, atrás da rebeldia, agressividade ou silêncio, está alguém tentando, com todas as forças, achar um lugar simbólico para continuar existindo sem precisar se trair. Lacan lembra: que o sofrimento explode quando não dá pra dizer o que se sente. Por isso tantos adolescentes vivem intensamente no corpo, com automutilação, distúrbios alimentares, compulsões, crises de ansiedade ou aquele eterno buraco por dentro. O corpo grita o que as palavras ainda não conseguem.

Aí entra Winnicott, trazendo um olhar cheio de humanidade. Para ele, ninguém cresce sozinho. Todo mundo precisa, desde pequeno, de um ambiente suficientemente bom pra poder se sentir seguro e, assim, ser de verdade. Quando esse ambiente falha feio, o adolescente aprende a sobreviver se adaptando demais. Ele age para agradar, disfarça, esconde a própria autenticidade pra ganhar amor, aceitação ou proteção. É aquilo que Winnicott chama de falso self.

No entanto, na adolescência, esse falso self começa a ruir. De repente, manter distância da própria verdade vira um fardo pesado demais. Sintomas, conflitos, exageros e uma enorme dúvida sobre quem se é de verdade aparecem. No fundo, por trás de muito adolescente “difícil”, tem alguém emocionalmente exausto, tentando sobreviver sendo o que esperam dele.

Winnicott também diz que a agressividade adolescente não é só destruição. Às vezes, é um pedido inconsciente para ser visto. O adolescente testa o ambiente o tempo todo pra saber se existe alguém capaz de suportar sua dor sem virar as costas. É aqui que a escuta da psicanálise faz toda a diferença. O papel do analista não é encaixar o adolescente em diagnósticos ou corrigir comportamentos como se fosse uma máquina. Antes de qualquer coisa, é preciso criar um espaço onde ele não tenha que se defender nem se esconder o tempo todo.

Na análise, o adolescente pode construir o que Lacan chama de “bem dizer”: um jeito próprio de colocar em palavras o que até pouco tempo atrás só aparecia como sintoma, silêncio ou sofrimento estampado no corpo. Muitos adolescentes nunca tiveram um espaço real de escuta. Foram corrigidos, interpretados, medicalizados, silenciados, pressionados a funcionar. Então, quando finalmente encontram um ambiente onde sua angústia pode existir sem ser invadido, algo ali começa, pouco a pouco, a se reorganizar.

A adolescência deixa de ser só aquilo que assusta e vira uma chance potente de se reinventar. Uma porta para encontrar formas mais verdadeiras de existir, amar, desejar e ficar inteiro, sem precisar desaparecer de si mesmo só pra sobreviver.

Eliane Prado | Psicóloga Clínica Mauá Instituto de Saúde – CRP 08-08/47049./ Crianças, adolescentes e adultos. Instagram: https://www.instagram.com/eliane56960psicologa_escritora

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A Redação do Diário dos Campos é composta por uma equipe de jornalistas e colaboradores, que produzem conteúdo de qualidade, com foco especial em Ponta Grossa (PR) e região dos Campos Gerais. O DC foi fundado em 1907 como jornal impresso, e atualmente publica notícias em diferentes plataformas.

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