Itumbiara e a face visceral da violência vicária


Por Danilo Kossoski
Girassol colocado em pedras com sinais de cruz, simbolizando lápides

Foto: Tânia Rêgo - Agência Brasil

Girassol colocado em pedras com sinais de cruz, simbolizando lápides
Foto: Tânia Rêgo - Agência Brasil

A tragédia ocorrida em Itumbiara (GO) — em que um pai matou os dois filhos e, em seguida, tirou a própria vida — não pode ser tratada apenas como mais um crime isolado e incompreensível. O arranjo hediondo dos fatos evidencia algo mais profundo e estrutural: a forma mais perversa de controle e punição doentia dentro de uma relação afetiva conhecida hoje como violência vicária, modalidade especialmente cruel de violência de gênero.

O caso, que chocou o país no início de fevereiro, envolveu o secretário de Governo do município, identificado como Thales Machado, que disparou contra seus dois filhos — de 12 e 8 anos — no interior da residência familiar e, em seguida, tirou a própria vida. O menino mais velho faleceu no local e o caçula sucumbiu aos ferimentos pouco depois no hospital. Antes do ato, o agressor publicou declarações cobrindo a suposta “traição” da esposa e a crise no relacionamento.

O que aconteceu em Itumbiara não é apenas mais um episódio de violência doméstica: trata-se de uma forma de vingança e intimidação direcionada à parceira, usando como meio os laços de afeto que essa parceira possui com seus filhos. É isso que define a violência vicária — quando o agressor deliberadamente causa sofrimento a terceiros (filhos, parentes, até animais) com o objetivo de atingir, punir ou controlar a mulher. O alvo direto pode ser a mãe, mas o meio é a destruição de tudo o que lhe é mais caro.

Esse tipo de violência é um sintoma claro de como certa cultura patriarcal ainda opera de forma perversa: não se trata apenas de controlar uma mulher, mas de destruir sua condição de afeto e proteção. Ao ferir crianças — em tese as pessoas mais vulneráveis e inocentes —, o agressor busca infligir um sofrimento que transcende as vítimas diretas e se espalha como um trauma social de proporções incalculáveis.

É fundamental destacar que, juridicamente, a violência vicária já foi reconhecida como forma de violência de gênero e de violação de direitos humanos, inclusive com resoluções recentes que colocam o fenômeno no mapa das políticas públicas de proteção à criança, ao adolescente e à mulher. Ainda assim, a compreensão social e institucional desse tipo de crime continua pequena diante de sua gravidade.

O caso de Itumbiara escancara outro problema grave: a culpabilização da mulher, frequentemente reforçada após crimes como esse, quando circulam versões que tentam justificar a violência cometida como “resultado” de comportamentos da vítima. Nada poderia estar mais longe da verdade. A agressão foi uma escolha exclusiva do perpetrador — não há justificativa que a legitime.

Mais do que lamentar, é preciso transformar essa dor em ação concreta. Temos de qualificar ainda mais nossa rede de proteção, garantindo que casos de violência vicária sejam reconhecidos e tratados com a seriedade que merecem, com intervenções preventivas, mecanismos de apoio e uma cultura que não tolere a instrumentalização de vínculos afetivos como meio de vingança.
Sobretudo, devemos lembrar que cada número em uma estatística representa seres humanos com histórias, sonhos e vínculos. As crianças assassinadas em Itumbiara eram filhos, netos, estudantes, companheiros de brincadeiras — e suas mortes abruptas nos convocam a repensar urgentemente nossas formas de enfrentar as violências que ainda persistem em nossa sociedade.

*Claudimar Barbosa da Silva é advogado em Ponta Grossa, Coordenador da Comissão Regional de Fé e Política, do Conselho Nacional do Laicato do Brasil – Regional Sul 2.

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