14 de julho de 2026

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A vacina não trará a solução imediata


Por DCMAIS Publicado 19/02/2021 às 13h50 Atualizado 21/02/2026 às 16h12
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Foto: Divulgação

Por Everson Krum

No próximo dia 11 de março, completaremos um ano vivendo oficialmente um estado de pandemia do novo coronavírus, declarado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Neste período, nós aprendemos a viver com várias restrições, especialmente no que diz respeito às aglomerações. Neste ínterim, os esforços científicos se fizeram presentes no desenvolvimento de uma vacina contra a covid-19 que, infelizmente, pode ainda não ser a solução imediata.

Para entendermos o porquê é preciso traçar alguns paralelos e pontos de referência. Vamos ao primeiro deles: há alguns dias, na Europa e nos Estados Unidos, iniciou-se uma discussão sobre a aplicação de somente uma dose de vacina para pessoas que comprovadamente já tiveram a infecção por covid e acabaram se recuperando. Neste caso, os pacientes já recuperados do novo coronavírus.

Destaca-se que, apesar de muitas vezes a infecção inicial produzir anticorpos e possivelmente garantir imunidade, o aparecimento de variantes do vírus traz um novo aspecto à mesa. Além disso, há uma incerteza sobre as mutações e a proteção da própria vacina contra tais variações. Desta forma, houve a recomendação para que pacientes recuperados da covid também fossem vacinados.

Em um momento em que há restrição na oferta de vacinas, dificuldade na aplicação e casos positivos aumentando praticamente em todo o Brasil, é adequado que recorramos a conceitos científicos para apresentar uma proposta de dose única de vacina para recuperados.

Para isso, precisamos fazer um novo paralelo: é preciso recordar um pouco sobre o nosso sistema imunológico. Quando somos contaminados por um vírus, nossas armas de defesa, dentre outros, são agentes anti-inflamatórios. Por sua vez, nosso corpo produz anticorpos para o combate do vírus. Passado o momento crítico da infecção, guardamos a “informação” do que é esse vírus para evitar um futuro ataque ao nosso organismo – esse dado fica armazenado na nossa memória imunológica.

Testes laboratoriais de controle de qualidade, validação e calibração, relacionados à quantificação de anticorpos contra a covid-19 mostram que, após a primeira dose da vacina Coronavac, aplicada recentemente, temos três tipos de resposta nos pacientes. Os primeiros são aqueles que já tiveram covid e já apresentam, neste momento, defesa imunológica contra nova infecção pelo vírus. Mas como não há evidências sobre possibilidade de transmissão ou reinfecção, estas pessoas devem continuar com os cuidados de prevenção.

O segundo tipo de reação no paciente reúne aqueles que não foram infectados pela covid. Deste grupo, os estudos mostram que ainda não apresentam defesa contra o vírus 21 dias após a vacinação. Desta forma, esse segundo grupo estaria suscetível a infecção mesmo após três semanas de aplicação da 1ª dose e também primordialmente necessitam manter os cuidados de prevenção já amplamente divulgados.

Há ainda um terceiro grupo de pacientes, que não tinham tido infecção pela covid e tomaram a primeira dose da vacina. Membros deste grupo, no período subsequente, acabaram se contaminando pela covid-19, mostrando assim que somente a primeira dose da vacina não é suficiente para prevenir a infecção, necessitando a dose complementar. Mais uma vez, é reforçado que são necessários os cuidados de prevenção para impedir que sejam contaminados.

Diante dos resultados dos estudos científicos até aqui realizados, no Brasil e exterior, há de se esperar que as autoridades públicas da Saúde indiquem a vacinação com somente uma dose contra a covid-19 para aqueles pacientes que já tiveram a doença e se recuperaram. Essa opção possibilitaria uma melhor utilização de doses neste momento de dificuldades de oferta dos imunizantes em todo o país.

Além disso, intensificar as campanhas de prevenção da doença é fundamental. Os dados mostram que mesmo os pacientes vacinados que ainda não tiveram covid estão suscetíveis à doença por ainda não terem formado anticorpos para a defesa imunológica. Há o risco de, em breve, predominar o sentimento de que vacinado está “liberado”, quando os testes mostram o contrário. Além disso, não há evidências de que os já recuperados de covid não possam ser reinfectados ou que transmitam o vírus a outros.

Ainda temos um caminho a percorrer na pandemia e é preciso que a sociedade busque na ciência caminhos seguros para adotar e enfrentar esse momento delicado. Além disso, é fundamental deixar de lado a defesa de interesses corporativistas e pensar na vacinação como um processo científico e adotado em prol do bem-estar coletivo.

O autor é vice-reitor da Universidade Estadual de Ponta Grossa, graduado em Farmácia, com habilitação em Análises Clínicas, e doutor em Hematologia.

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