A sua inteligência também é artificial?
Ultimamente, existe um tipo de cena que está mais frequente – e cada vez mais… desconcertante. Você abre o LinkedIn, o Instagram ou mesmo comentários em conteúdos e parece que todo mundo virou um NPC. Ah, para quem não é do meio, NPCs são aqueles personagens em jogos (videogames ou RPG) controlados pelo sistema, não por jogadores reais, com funções pré-programadas de interação. Sempre com a mesma fala, mesma estrutura de frase. Mudam as bolinhas e fotos, mas no conteúdo parece que falta um tempero. Um borogodó. Um algo mais. Mais personalidade, talvez.
Calma. Eu não sou contra a inteligência artificial. Ela pode acelerar processos, ampliar repertório, organizar dados, revisar, comparar, estruturar, resumir e até produzir coisas excelentes. O duro é considerarmos normal o “delargar” aquilo que deveria continuar sendo o que nos faz diferentes: critérios, valores, direção, profundidade e identidade.
Estamos em um cenário em que uma IA escreve uma dúvida para outra IA responder e, após a dúvida sanada, uma terceira IA vai lá fazer a ação que está pendente. E nós? Será que a gente consegue evoluir e se lapidar com tanta automação? Eu acredito que sim. Se tem gente fazendo isso, deve ser porque é possível. Aposto que essas pessoas, uma vez por semana (pelo menos) se perguntam: ainda existe algum pensamento verdadeiro aqui dentro de mim ou vamos juntos numa linda jornada de transformação para ajudar o mundo a ser melhor (insira um emoji de brilhos ao final)?
E aí vem minha pergunta sincera (não leve como uma ofensa, ela é sincera mesmo). E aí? A SUA inteligência também é artificial?
Porque “artificial” não significa só algo produzido por uma ferramenta contemporânea. Artificial também pode significar superficial, raso, sem densidade, sem vida própria. Há alguns anos, dizer que alguém tinha uma “inteligência artificial” não seria nem de perto um elogio. Seria uma forma elegante de dizer que lhe faltava uma profundidade, um estofo.
Talvez seja exatamente isso que esteja acontecendo em muitos lugares.
A inteligência artificial generativa impressiona, mas ela não é inventiva no sentido humano do termo. Ela combina, recompõe, reorganiza, prediz. Trabalha em cima de massas enormes de informação já existente. Isso é absurdamente poderoso, mas, cá entre nós: continua existindo uma diferença brutal entre empilhar bem o que já foi dito e parir algo com originalidade, com contexto de quem está skin on the game.
É por isso que o uso irrestrito da IA começa a expor mais do que esconder. Quanto mais se delega tudo à ferramenta, mais se pode não estar demonstrando eficiência. Isso acaba revelando que, sem ela, talvez muitas pessoas simplesmente nem tivessem nada a dizer. Daí o poder de um olho no olho. Um almoço sem pressa. Um churrasco, um happy hour. É que que é de verdade no mercado percebe. O cliente percebe e cada dia vai perceber mais. O concorrente percebe.
A IA deve ser a ferramenta a favor do cérebro pensante. E não o contrário. Até porque uma ferramenta brilhante nas mãos de alguém sem visão continua sendo só uma ferramenta brilhante. É só nas mãos de quem pensa, escolhe, dirige, valida e tem conteúdo real para alimentá-la que ela se torna poderosa.
Um diferencial é ter repertório para parametrizar. É importante que sejamos capazes de provar (a nós mesmos) que existe inteligência real por trás disso tudo. Até porque, no fim das contas, usar inteligência artificial é comum e esperado. A questão que fica é: sem ela, aquilo que resta te conforta ou te preocupa?
O autor é consultor jurídico-empresarial, advogado há mais de dez anos e especialista em planejamento e estruturação de negócios. Acredita que a perspectiva aliada à fluidez são elementos essenciais para quem deseja deixar um legado de excelência. @jeffwegermann
