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 MEMÓRIAS DO PASSADO

Carlos Mendes Fontes Neto *

As construções que compunham o perímetro urbano da cidade de Ponta Grossa até meados do século passado traduziam de forma expressiva as características dos moradores e da sua composição comercial. Assim é fácil perceber que essas construções, na sua maioria de estilo eclético, procuravam demonstrar a posição social e poderio dos proprietários assim como destacar, no caso das casas de comércio, a importância da atividade. A cidade possuía um ar bastante europeu, com uma influência notadamente germânica. Os artífices e construtores da época demonstravam um conhecimento de técnicas que proporcionavam uma grande riqueza visual. Os elementos que valorizavam essas construções ainda são bastante notáveis e podem ser percebidos nas que foram poupadas.

A cidade tinha também uma urbanização bastante moderna para a época com praças e ruas arborizadas e bem cuidadas, com traçados perfeitos (leia-se aqui o nome da família Schell, que por muito tempo foi responsável pelo ajardinamento público). Até o hoje centenário Cemitério Municipal São José era ajardinado.

É comum observarmos em cidades antigas as diversas fases que elas atravessaram durante seu desenvolvimento pelos arruamentos e edificações. Desde um núcleo central que pode apresentar características urbanísticas de épocas até medievais (comuns em cidades europeias) passando, à medida que nos afastamos para a periferia, por todos os períodos que foram se sucedendo durante as fases de desenvolvimento. Aqui em Ponta Grossa não se consegue mais perceber esse crescimento, talvez por não se ter preservado um centro histórico original. O tecido urbano apresenta descontinuidade na ordenação de estilos e volumes que compõem o conjunto edificado, coexistindo ainda certo desprezo pela conservação de elementos arquitetônicos que valorizam as fachadas originais de outras épocas. Assim podemos observar fachadas que são completamente cobertas com placas, painéis ou até mesmo a retirada de ornamentos e elementos que compõem o estilo original procurando dar um ar de falsa modernidade à edificação, e que acabam por nos oferecer um ambiente sem qualquer significado estético.

O sentimento de pertencimento e até de orgulho pela cidade em que moramos passa definitivamente pela forma como nos relacionamos com ela. E esse sentimento tem sido bastante prejudicado. Talvez seja uma das questões fundamentais para explicar o porquê da noção de preservação do nosso patrimônio cultural não encontrar eco na população.

 

*Engenheiro e mestrando na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto em Portugal.

As fotografias, de minha autoria, que ilustram o artigo são detalhes de edificações do centro da cidade e faziam parte de uma exposição chamada Espectros do Passado realizada no Sesc-Ponta Grossa no ano de 2003 sob curadoria de Márcia Sielski.

O desafio é descobrir de quais edificações são e se ainda existem.

 

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